Contradição na exibição das causas revolta famílias

Aos parentes, falhas técnicas foram destacadas; para a imprensa, apresentação focou inicialmente o comportamento da tripulação

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL , LE BOURGET, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2012 | 03h01

Parentes de vítimas do voo AF-447 que compareceram ao Aeroporto de Le Bourget, a 20 quilômetros de Paris, para acompanhar a apresentação do relatório final do BEA sobre as causas do acidente deixaram o auditório indignados. Eles estavam irritados com os peritos do escritório, que pela manhã haviam enfatizado as falhas técnicas do avião e, à tarde, para a imprensa, ressaltaram os erros dos pilotos.

A indignação uniu famílias francesas, alemãs e brasileiras que estavam presentes. Pela manhã, na exposição aos parentes, Alain Boulliard, chefe de investigações do BEA, havia usado só uma frase para definir o acidente. "O diretor de voo (equipamento de navegação da aeronave) dava ordens para ganhar altitude que certamente influenciaram os pilotos a ganhar altitude." À tarde, Boulliard demorou a reconhecer essa mesma circunstância e só o fez por pressão dos jornalistas.

"Essa apresentação foi inacreditável. Pela manhã, o discurso era absolutamente diferente. Eles foram taxativos dizendo que os pilotos seguiram as ordens do aparelho", reclamava Laurent Lamy, irmão de uma das vítimas. Sua mãe, Danielle, estava ainda mais exaltada e protestava contra o que considerava manipulações dos experts. "Pensam que todos nós somos idiotas?"

Robert Soulas, presidente da Associação Ajuda Mútua e Solidariedade, que agrupa famílias francesas, também estava exasperado. Engenheiro, ele estudou os detalhes do relatório. "O BEA nuançou suas considerações ao falar à imprensa. Como podemos dizer que esse órgão é objetivo?"

Entre as famílias alemãs, o clima era o mesmo. Bernard T. Gans, administrador, considerou a coletiva de imprensa "devastadora". "Felizmente, havia vários técnicos e jornalistas no auditório para questioná-los", disse. "Eu me pergunto se a Airbus não deveria trocar todos esses aparelhos defeituosos."

Famílias brasileiras. Nelson Marinho, presidente da associação de famílias brasileiras, também estava decepcionado. "Foi uma negação", lamentou. Ao fim da reunião, Marinho anunciou que sua associação vai ingressar na Justiça da França com um pedido para integrar como "parte civil" o processo. Isso significa que as famílias de vítimas poderão eventualmente receber uma indenização grupal, em caso de decisão favorável do Tribunal de Grande Instância de Paris. A data do primeiro julgamento ainda não foi marcada.

Segundo o consultor de hotelaria Maarten Van Sluijs, de 50 anos, irmão da jornalista e funcionária da Petrobrás Adriana Francisco Sluijs, que morreu aos 40 anos, outra perícia será apresentada no dia 10, durante audiência no processo criminal que tramita na Justiça francesa. Os principais detalhes do texto, que aponta falhas técnicas e humanas e serve como o base para a responsabilização das empresas por homicídio culposo, foram revelados ontem pelo Estado.

"Entre os dez peritos que vão assinar essa análise, sete participaram do relatório do BEA. O teor deve ser semelhante", afirmou Maarten no Rio. Ele estima que 60% das vítimas brasileiras já firmaram acordos de indenização. "Mas na Europa a maioria das famílias aguarda essas análises para decidir os próximos passos." / COLABOROU FÁBIO GRELLET

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