Concessão federal apenas tapa buraco

Baixo valor de tarifa de pedágio na Régis e na Fernão Dias atravanca investimentos estruturais; em vários pontos, há redução das pistas

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2010 | 00h00

Dois anos após a concessão para a iniciativa privada, duas das principais rodovias do País, a Fernão Dias (BR-381) e a Régis Bittencourt (BR-116), continuam em estado precário. O preço baixo do pedágio fixado pelo governo federal não possibilita que a concessionária, o grupo OHL, faça os investimentos necessários para melhorar as condições de tráfego e as obras se resumem a tapa-buracos.

A Fernão Dias, que liga São Paulo a Minas Gerais, desafia a paciência dos motoristas. Em vários pontos, há redução de pista por causa de obras pontuais.

A pista sentido Belo Horizonte está interditada no km 79, em Mairiporã, na região metropolitana, desde março. Uma encosta cedeu e afetou a estrutura de um viaduto e o tráfego foi desviado para a área urbana. A reabertura da estrada pode demorar seis meses. Em outros dois pontos, no km 64 e no km 60, aterros cederam e a pista ameaça desabar.

Na Régis, principal ligação de São Paulo com o Sul, os investimento se resumem a contenções das barreiras e reparos de emergência. A obra mais esperada, a duplicação dos 30,5 quilômetros do trecho crítico na Serra do Cafezal, entre Juquitiba e Miracatu, a 138 km de São Paulo, foi adiada para 2013.

A reportagem percorreu os 299,7 quilômetros do trecho paulista na semana passada e contou 21 pontos de interdição parcial, com afunilamento ou desvio de tráfego. No km 508, em Cajati, um deslizamento entortou os pilares de um viaduto. A pista sul foi interditada e o trânsito flui por um desvio que também sofre erosão.

A cerca de 90 km dali, em Miracatu, um trecho de dois quilômetros na pista norte está inutilizado pela queda de um barranco. O trânsito foi desviado para a outra pista. Nos dois casos, não há previsão para a liberação.

Motoristas reclamam do asfalto irregular, principalmente entre Miracatu e Juquiá e na região de Barra do Turvo. "A cabine trepida e a carga sacoleja", conta Márcio Fontoura, de 37 anos, de Uruguaiana (RS). Em muitos pontos, os tapa-buracos não são suficientes. A pista requer o recapeamento, mas a concessionária tem optado pela reposição do piso afetado. A roçagem não dá conta do mato do canteiro central. Faltam passarelas para pedestres nos trechos urbanos de Miracatu, Jacupiranga e Cajati.

O chileno Luis Contreras, que transporta cargas entre Santiago e Rio de Janeiro, reclama da falta de estacionamento para caminhões. "Depois das 21h, os postos ficam lotados e não se consegue espaço nem pagando."

São comuns assaltos e saques após acidentes. Contreras conta que um caminhoneiro foi morto por assaltantes no dia 30. "Roubaram a carga de pneus."

A privatização não eliminou o comércio irregular nas margens da pista. Em Cajati, a reportagem flagrou crianças disputando moedas atiradas pelos motoristas na beira do asfalto. Na subida da Serra do Azeite, as carretas trafegam com marcha reduzida e os moradores pedem dinheiro.

No km 517, um menino com cerca de 9 anos, com uma mochila escolar, corria pela pista e apelava para o motorista de uma carreta. Depois, ele e um colega se arriscaram para catar as moedas que tinham caído no asfalto. O agente da Polícia Rodoviária Federal Roberto Cortez disse que há também casos de prostituição infantil. "A gente inibe, mas não dá para manter viaturas fixas nesses locais."

Durante os feriados da Semana Santa, a rodovia registrou 69 acidentes, 34 com vítimas. Foram 48 feridos e quatro mortos.

Duplicação. Só para fazer a duplicação da Serra do Cafezal, um investimento de mais de R$ 300 milhões, o grupo OHL explorará o pedágio durante 25 anos, contados a partir de novembro de 2007. No prazo total do contrato, a empresa terá de investir R$ 3,8 bilhões em melhorias em toda a rodovia.

O trecho da serra é um pesadelo: chegam a se formar comboios de carretas com até 10 quilômetros. A pista sinuosa, com asfalto deteriorado, admite velocidade máxima de 60 km/h, controlada por radares.

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