Como preservar as qualidades de São Paulo?

Como preservar as qualidades de São Paulo?

A mudança de uso residencial para comercial não pode servir de justificativa para destruir sumariamente arquiteturas de valor de bairros-jardim e vias como a Avenida Brasil

José Eduardo de Assis Lefèvre, O Estadao de S.Paulo

03 Abril 2010 | 00h00

Uma das mais bonitas avenidas da cidade, a Avenida Brasil deixa evidente uma das questões que afligem todos que amam a nossa cidade: como preservar as suas qualidades?

Em primeiro lugar, é necessário bem identificar suas qualidades. O canteiro central, largo, ajardinado e arborizado é a primeira qualidade que salta à vista. Mas uma qualidade sozinha não faz o ambiente. É necessária uma combinação de elementos que, no caso da avenida, é constituída pelo recuo generoso das construções lindeiras, pelo ajardinamento e arborização presentes em grande parte desses recuos e pela visão das construções no interior dos lotes, sem as barreiras constituídas pelos muros altos que hoje substituíram os antigos fechamentos baixos em boa parte dos lotes dos Jardins América e Europa.

A Avenida Brasil nos anos 50 e 60 só tinha residências em sua extensão, da Avenida Rebouças à Brigadeiro Luís Antônio, e uma igreja, a de Nossa Senhora do Brasil. As obrigações contratuais presentes nos contratos da Cia. City obrigavam que os fechamentos para a rua deveriam ser baixos e não deveriam barrar a visão para o interior dos lotes, sendo admitidas cercas vivas, também baixas. Com isso, as ruas internas ao Jardim América apresentavam uma largura considerável no espaço que ia de uma construção residencial a outra, que além do mais tinham recuos laterais significativos. Este era o ambiente idealizado para os bairros-jardim, com muita arborização e uma densidade baixa.

A nossa cidade hoje vive uma realidade muito diversa da dos anos 50. Não só pela violência que assusta e amedronta. O volume de tráfego nas vias principais e corredores acabou com a calma necessária ao uso residencial. Não é possível preservar o aspecto físico daquela realidade em um contexto tão modificado. O tombamento não resolve essa questão. É como querer limitar a velocidade do carro travando o velocímetro.

Não se pode pôr a culpa nos urbanistas de uma maneira geral. O urbanismo é arte e ciência voltada para tornar o ambiente de nossas cidades melhor. Ora, os processos de urbanização extrapolam em larga medida a capacidade de controle dos urbanistas. Claro, sem os urbanistas, sem metas, sem planos de intervenção, as urbanizações seriam mais caóticas. Em algumas situações e em algumas escalas, os urbanistas conseguiram resultados primorosos. Mas é necessário um grau de civilidade da população urbana que os urbanistas não têm como impor. É necessário que a civilidade seja uma conquista da população como um todo.

Minha observação é de que há uma responsabilidade sobre cada ato feito no ambiente urbano que é preciso assumir. O tráfego e a violência não são desculpas para transformar nossas ruas em corredores de penitenciária, com muralhas, guaritas, holofotes, arames farpados e agentes armados. A mudança de uso residencial para comercial não é justificativa para destruir sumariamente arquiteturas de valor ou pitorescas, que podem ser aproveitadas como elementos de valorização.

É professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp)

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