RAFAEL ARBEX/ESTADAO
RAFAEL ARBEX/ESTADAO

Parada LGBT adota tom político em SP

Aos gritos de 'Fora Temer', organizadores pediram eleições diretas; neste ano, evento adotou como tema o combate ao fundamentalismo religioso

Bruno Ribeiro e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 11h53

SÃO PAULO - Aos gritos de "Fora, Temer!", a 21ª Parada do Orgulho LGBT foi realizada neste domingo, na Avenida Paulista, em São Paulo. Os organizadores do evento adotaram um tom político e pediram a realização de novas eleições presidenciais. A Polícia Militar não informou o número de pessoas que passaram pelo evento, mas a organização tinha a expectativa de reunir 2 milhões.

A multidão começou a se concentrar às 10 horas, na frente do Museu de Arte de São Paulo (Masp). "Nós queremos 'diretas já' para ontem", afirmou Nelson Matias, sócio fundador da Associação da Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo (Apoglbt), que há 21 anos organiza o evento.

"A Parada é uma festa, sim, mas também uma manifestação", disse Matias. "Se fôssemos um País consciente já teríamos derrubado esse governo que está aí, mas estamos assistindo a tudo deitados em berço esplêndido."

Trios elétricos. Os desfiles dos 19 trios elétricos, a custo estimado de R$ 2 milhões, contaram com atrações como a cantora Anitta, no trio do Uber, e Daniela Mercury, no da Skol - os dois patrocinadores do evento. Fafá de Belém e Tulipa Ruiz também fizeram parte da programação. Os trios desceram a Consolação até a Praça Roosevelt, onde ocorreram as dispersões. Às 19h30, já com o fim dos desfiles, ainda era grande a concentração de pessoas na região. O fluxo, por sua vez, fluía sem bloqueios na Estação República do Metrô, a mais perto do local

Por volta das 12h30, a atriz e apresentadora Fernanda Lima fez um discurso breve de abertura, em que defendeu a diversidade. "Estou muito emocionada", disse. Embaixo do trio elétrico, o público puxou um "Fora, Temer", que se repetiu em intervalos de poucos minutos.

Sempre presente na Parada LGBT, o vereador Eduardo Suplicy (PT) discursou. "É preciso que a Prefeitura continue o programa Transcidadania (de transferência de renda e formação profissional), que levou condição de respeito a centenas de transexuais", afirmou. O deputado estadual Ramalho da Construção  (PSDB) destacou a evolução da Parada ao longo dos anos. "Na primeira reunião eram 200 pessoas."

O vice-prefeito Bruno Covas (PSDB), representante do prefeito João Doria  (PSDB), que está em viagem ao Caribe pelo aniversário de 15 anos da filha, disse que era "a maior Parada do mundo" e que Prefeitura investiu R$ 1,4 milhão no evento.

"São duas razões. Em primeiro lugar, mostrar que São Paulo é exemplo de respeito à diversidade", afirmou Covas. "A segunda é mostrar para o mundo inteiro que a cidade é vocacionada a receber eventos como esse, que é uma forma alternativa de gerar emprego e renda."

A única queixa que se ouviu em meio ao público foi em relação à curta duração do show da cantora Anitta. “Não vim aqui ‘só’ para ver a Anitta, mas queria ter ouvido ela também”, afirmou o analista de cobrança Rubens Lima, de 27 anos. A cantora apresentou duas músicas em um dos trios, no começo da tarde, e depois saiu. No Twitter, disse que a divulgação de sua participação estava incorreta – não estaria prevista uma apresentação longa.

Estado laico. Neste ano, a Parada LGBT adotou como tema o combate ao "fundamentalismo religioso". "Independente de nossas crenças, nenhuma religião é Lei! Todas e todos por um Estado Laico", diz o tema escolhido.

Para Nelson Matias, o avanço do protagonismo político de bancadas evangélicas é o principal responsável pelo que chamou de "retrocesso da pauta LGBT". "Todos os direitos que conquistamos não foram pelo Legislativo, foram pelo Judiciário", afirmou.

"As bancadas evangélicas têm emperrado nossa participação nas discussões", disse. "Emperram a criminalização da homofobia. Propõem o Estatuto da Família e a retirada das discussões de gênero nas escolas."

O público, formado por todas as idades, estava satisfeito. "Eu adorei, o pessoal é muito divertido", disse a aposentada Aparecida Persi, de 78 anos, que veio pela primeira vez na Parada LGBT, acompanhada da irmã Thereza Persi, de 76. "Eu sempre via na TV e tinha vontade de vir", contou Thereza. "Eu não tenho preconceito: vejo todos como iguais", concluiu.

"O importante é que todo mundo se sinta feliz sendo o que é", afirmou a estudante Mariana Reixelo, de 16 anos, também pela primeira vez na Parada LGBT. "Eu já vim umas dez vezes: adoro essa bagunça bonita, essa diversidade", disse a tia dela, a autônoma Katia Picolo, de 51.

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