EFE/SEBASTIÃO MOREIRA
EFE/SEBASTIÃO MOREIRA

Combinação de seca e calor extremo agrava crise do Cantareira

Dados oficiais mostram que nos primeiros 15 dias do ano o sistema recebeu 35% menos água do que a média de janeiro passado, enquanto as temperaturas máximas na capital batem recordes

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Apontada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) como a causa da crise hídrica paulista no início de 2014, a combinação de seca severa nos mananciais e calor extremo na capital está ainda mais crítica em 2015. Dados oficiais mostram que nos primeiros 15 dias do ano o Sistema Cantareira recebeu 35% menos água do que a média de janeiro passado, enquanto as temperaturas máximas na cidade estão batendo o recorde registrado no mesmo período do ano anterior. 

Até esta quinta-feira, 15, segundo boletim divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA), o Cantareira recebeu, em média, apenas 9,2 mil litros por segundo, ante 14,3 mil litros registrados em janeiro de 2014, quando a crise de estiagem do manancial foi declarada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A vazão representa apenas 14,7% da média histórica para o mês de janeiro, que é de 62,8 mil litros por segundo. Os dados são relatados desde 1930. 

No mesmo período, a média das temperaturas máximas diárias registradas na cidade de São Paulo, onde mais de 5 milhões de pessoas ainda consomem água do Cantareira, foi de 32,5 °C, conforme a medição oficial feita pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), na zona norte. Em janeiro de 2014, a média foi de 31,9 °C, recorde até então. A média histórica para o mês é de 27,7 °C, segundo registros feitos desde 1952 pelo órgão. 

Bloqueio. Para a meteorologista Patrícia Madeira, da empresa Climatempo, a Região Sudeste sofre novamente com um bloqueio atmosférico que impede a chegada das frentes úmidas da Amazônia e frias do Sul, que contribuem para a formação de nuvens e chuvas na região nesta época do ano. Além de São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo vivem dias secos e quentes. A diferença, diz ela, é que a atual zona de alta pressão é mais fraca do que a de 2014, que castigou a população por cerca de 50 dias, até meados de fevereiro. 

“No ano passado, nada passava (pelo bloqueio). Neste ano, a frente fria vai passar, mas vai passar muito fraquinha. A sensação das pessoas pode ser até de semelhança, mas as condições não são exatamente iguais. Até março, esse bloqueio vai voltar várias vezes, mas não com tanta força como no ano passado”, afirma.

O resultado desse cenário, contudo, é desanimador diante da gravidade da crise hídrica paulista. “Janeiro já está fechado. Chuva menor do que o normal, concentrada nos dez últimos dias do mês. A previsão climática é de que fevereiro vai ter também chuva abaixo da média, com até seis dias seguidos sem chuva por causa desse bloqueio. A maior concentração de chuvas deve ser em março mesmo”, completa Patrícia.

No início do ano passado, a Sabesp disse que foi a falta de chuvas no Cantareira, associada ao aumento do consumo de água pela população na capital por causa do calor recorde que resultou na crise. À época, contudo, a empresa ainda retirava cerca de 30 mil litros por segundo do Cantareira para atender 8,8 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Hoje, a companhia tira do manancial metade do volume para atender cerca de 6,5 milhões de pessoas.

Tamanha redução só foi possível porque a população reduziu o consumo em 4,8 mil litros por segundo, mas, principalmente, por causa da redução da pressão da água na rede, que levou a uma economia de 8 mil litros por segundo, conforme a empresa. A medida, chamada de “restrição hídrica” ou “racionamento não sistêmico” pela Sabesp, tem provocado falta d’água em todas as regiões da capital e será intensificada pela companhia neste verão.

Segundo o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, com o aumento do consumo por causa do calor, é possível que regiões mais altas da cidade sejam ainda mais afetadas pela medida agora. Mas a empresa promete evitar longos cortes no abastecimento.

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