Comando refaz ação de Pinheiros para checar erros

Policiais passaram a tarde simulando formas corretas de abordar carros; procedimento foi gravado e será passado a outros batalhões

BRUNO PAES MANSO, BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2012 | 03h02

A abordagem frontal de carros suspeitos não fazia parte, até ontem, do conjunto de situações práticas treinadas pela Polícia Militar de São Paulo. Só agora, após a morte do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, de 39 anos, baleado por PMs que o abordaram de frente, na noite de quarta-feira, no Alto de Pinheiros, zona oeste, esse tipo de situação está sendo estudada e será treinada por todos os batalhões da Região Metropolitana.

Oito policiais passaram a tarde de ontem simulando formas corretas de ação em carros como o do publicitário, com a viatura da polícia abordando o carro suspeito pela frente. O treino foi no Quartel General da PM, no Bom Retiro, região central. Policiais que participaram da encenação chegaram a usar um escudo da Força Tática para se aproximar do suspeito. Outro policial, sem farda, manteve um celular na mão o tempo todo - policiais que atiraram no publicitário disseram ter confundido celular com arma.

O homem foi convencido a sair do veículo. Depois, foi imobilizado e revistado, assim como o carro. O procedimento foi todo gravado e será repassado para todos os batalhões da cidade.

O coronel Marcos Roberto Chaves, comandante do Comando de Policiamento da Capital, diz que o procedimento esperado dos policiais quando param um carro suspeito é estacionar a viatura atrás do carro. Se a viatura fechar o carro suspeito, tendo de fazer uma abordagem frontal, o treinamento determina que os PMs esperem a chegada de outra viatura por trás. A abordagem seria feita por este outro carro.

"Por incrível que pareça, a abordagem pela frente até acontece, já aconteceu. Mas foi em circunstância que o agressor não fugiu", disse ele, ao justificar a falta de modelos de ação para a abordagem de frente.

"Nesse caso em particular (de Pinheiros), por qualquer motivo, a abordagem foi feita ao contrário. Então gera um estresse, porque ele (o PM) está de frente para o agressor e não sabe do que se trata - porque, se (o suspeito) fugiu, tem algum motivo para isso. E, nesse momento, o policial tem de saber qual é a melhor técnica de abordagem sem que tenha de fazer uso da arma."

O coronel disse acreditar que a falta desse treinamento específico, o fato de estar de noite e de as luzes do carro de Aquino atrapalharem a visão dos policiais contribuíram para o desfecho trágico. "Tudo isso influenciou. Quando o policial está sob adrenalina, embora ele seja muito treinado, pode ficar em uma situação em que não sabe o que fazer. E ele não pode improvisar, tem de agir sob as técnicas." Por isso, disse ele, será feito esse novo treinamento.

POPs. A simulação de ontem foi, segundo o coronel, uma aplicação diferente do Procedimento Operacional Padrão (POP) - conjunto de normas de atuação às quais os PMs são submetidos antes de irem para as ruas. Eles aplicaram as técnicas do POP na situação "nova" - a abordagem frontal. A conclusão, segundo Chaves, foi de que o POP não precisaria ser alterado, apenas treinado no novo tipo de abordagem. Se fosse o caso, segundo o coronel, o POP poderia ser alterado.

Não é incomum que a Polícia Militar reveja seus próprios métodos a partir de ocorrências cujos resultados são inesperados. Foi o que aconteceu em outubro de 2010, depois que um carro em fuga bateu em 14 veículos e atropelou 3 policiais. Atualmente, as normas policiais impedem a perseguição de carros em fuga. Deve-se buscar fazer o cerco.

Os POPs, da mesma forma, vão sendo feitos conforme as necessidades. As normas para abordagens feita em motos, por exemplo, também foram criadas recentemente, quando se intensificou o patrulhamento por duas rodas. Os POPs ficam disponíveis na intranet da corporação e não estão abertos ao público. O maior desafio da PM ainda é fazer com que as regras sejam seguidas nas ruas.

"O PM chega ao treinamento com a bagagem de conhecimento que ele aprende na rua. Os procedimentos são ensinados e ele sai com dois tipos de conhecimento - o oficial e o de rua. Na hora H, na hora do estresse, o que ocorre é que o policial acaba usando o conhecimento que o faz se sentir mais seguro. Que é o que ele aprende na rua", diz a major Tânia Pinc, que entrou para a reserva no começo do ano. Atualmente, ela participa de um grupo de estudos na corporação que trata dos Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) e busca fazer com que eles sejam usados pelos policiais nas ruas.

Segundo Tânia, duas são as principais razões que impedem que os policiais sigam os POPs na hora em que estão nas ruas. A primeira é decorrente da metodologia de como as técnicas são ensinadas, que ainda precisa ser aprimorada. "A forma como se ensina hoje não consegue mudar o comportamento do policial. Durante as aulas, o policial faz de conta que aprende. É preciso entender o sentimento do policial para que ele se convença a usar os ensinamentos que são passados", disse.

A segunda razão é a quantidade insuficiente de treinamento. Atualmente, o policial passa por um treino por ano e começa a trabalhar nas ruas depois de pouco tempo na escola. "O horário de 12 horas de trabalho por 36 de folga impede que haja tempo suficiente para treinar. Estão sendo pensadas alternativas para aumentar o total de treinamento."

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