Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Com crise, lentidão do trânsito em São Paulo tem maior queda em 6 anos

Média de congestionamentos no centro expandido da capital foi de 58 km ao longo do ano passado, índice 12% menor do que os 66 km medidos nas vias centrais em 2015. Dados parciais da CET até abril apontam que tendência de queda continua em 2017

Bruno Ribeiro, Fabio Leite e Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

10 Agosto 2017 | 03h00

Apesar do aumento da frota de veículos registrados na cidade, que já soma mais de 8,3 milhões, o índice oficial de lentidão em São Paulo caiu em 2016 pelo segundo ano consecutivo. Balanço recém-divulgado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostra que a média de congestionamentos no centro expandido da capital foi de 58 km ao longo do ano passado, índice 12% menor do que os 66 km medidos nas vias centrais em 2015. Foi a maior queda registrada nos últimos seis anos. 

Especialistas em trânsito ouvidos pelo Estado atribuem a queda da lentidão no trânsito paulistano à crise do País, que reduziu a atividade econômica e, consequentemente, a circulação pela cidade. Os dados da CET já haviam mostrado em 2015, primeiro ano da crise, uma redução de 10,7% em relação a 2014. As medições são feitas entre 7 e 20 horas. 

Em 2017, segundo dados parciais até abril, a tendência de queda nos engarrafamentos continua. Em abril, por exemplo, a média foi de 65 km nos horários de pico da manhã (7h às 10h) e da tarde (17h às 20h). “Embora a frota tenha crescido, o fluxo de veículos é totalmente dependente da economia. Se a lentidão no trânsito diminuir é porque a atividade econômica retraiu, infelizmente. Não tivemos nenhuma ação na operação do trânsito que pudesse melhorar o desempenho. Pelo contrário, temos um problema grave com a operação dos semáforos da cidade”, disse o consultor de trânsito Sérgio Ejzenberg. 

Os anos de 2015 e 2016 foram marcados por uma política de redução mais intensa dos limites de velocidade na cidade, com padrão 50 km/h, implementada pela gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT). Para Ejzenberg, porém, a medida não surtiu efeito nos índices de congestionamento. “Aumentou o número de pessoas desempregadas, principalmente na região metropolitana. Isso reduz a circulação de pessoas e, consequentemente, o trânsito”, corrobora Luiz Vicente Figueira de Melo, professor de engenharia de tráfego da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O relatório da CET, que faz uma avaliação anual da Operação Horário de Pico desde 1997, quando foi instituído o rodízio de veículos em São Paulo, mostra que o pico de lentidão na cidade continua sendo às 19 horas, com 104 km de congestionamentos em média. No ano passado, o índice neste horário era ainda maior (111 km). 

Aplicativo. Para os especialistas, o uso de aplicativos de trânsito como o Waze, que auxiliam os motoristas a fugirem dos engarrafamentos nas principais vias da cidade, ajuda a explicar a redução da lentidão nas vias monitoradas. Morador da Aclimação, na zona sul, o assessor comercial Carlos Ietoso, de 57 anos, faz “tudo de carro” e não sai de casa sem se conectar ao aplicativo, que usa há cerca de dois anos. “Ajuda muito. Em 90% das vezes, a direção indicada é a mais rápida.”

Proprietário de uma empresa de decoração em Perdizes, na zona oeste, Michael Balog, de 45 anos, usa o carro a trabalho, atendendo a uma média de dez clientes por dia a domicílio, e recorre sempre a duas dicas de trajeto para driblar os congestionamentos. “Fica Waze de um lado, GPS do outro, daí a gente faz uma média”, diz.

Quando é dia de rodízio de seu veículo, ele se organiza para sair mais cedo ou mais tarde para fugir dos horários de restrição de circulação para os compromissos. Segundo o balanço da CET, em média, 22% dos carros proibidos de circular no dia antecipam suas viagens pela manhã, entre 6h30 e 6h45, e 12% entre 6h45 e 7h, quando se inicia o rodízio. Já 14% saem entre 10h e 10h15, e 21% entre 10h15 e 10h30, após o término da restrição municipal.

De acordo com a CET, o índice de obediência ao rodízio permaneceu praticamente estável no ano passado, chegando a 90% no período da manhã e 84% no período da tarde. Isso significa, por exemplo, que 16% dos veículos proibidos de circular em determinado dia ainda são flagrados nas ruas da capital entre 17 e 20 horas. 

Em quatro décadas, velocidade média subiu só 5 km/h

A velocidade média do trânsito de São Paulo nas últimas quatro décadas subiu apenas 5 km/h, nos horários de pico da manhã. A primeira pesquisa Volumes e Velocidades, de 1977, anotava que o trânsito da cidade tinha uma velocidade média de 20,6 km/h no começo do dia - ante os atuais 25,5 km/h apontados no mesmo horário de pico.

Já na parte da tarde, os resultados de 2016 mostram um balanço ainda pior do que em 1977. Naquele ano, os engenheiros da CET cravaram que a velocidade média da cidade no horário de pico da tarde era de 23,9 km/h. No ano passado, a pesquisa apontou piora: média de 20,9 km/h.

O Detran não tem disponível dados sobre o tamanho da frota de veículos na cidade naquele ano. O dado mais antigo é de 2008, quando a cidade tinha 6,3 milhões de veículos. Hoje são 8,4 milhões. 

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Corredor da Avenida Brasil é o mais lento da capital

Ali, se roda normalmente a 6,8 km/h, enquanto na Marginal do Pinheiros é possível trafegar em média a 36,5 km/h

Bruno Ribeiro e Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

10 Agosto 2017 | 03h00

O corredor viário formado pelas Avenidas Henrique Schaumann, Brasil e Pedro Álvares Cabral - ligação entre a região do Parque do Ibirapuera e o bairro do Sumaré, na zona oeste - é o ponto com pior índice de velocidade média da cidade nos horários de pico da tarde. Ali, a velocidade média do motorista é de apenas 6,8 km/h. Na outra ponta está a Marginal do Pinheiros, onde mesmo com o trânsito carregado é possível circular a uma velocidade média de 36,5 km/h.

Os dados estão na pesquisa Volumes e Velocidades de 2016, publicada pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Os técnicos da companhia fazem, anualmente, um ranking dos corredores que têm melhores e piores velocidades médias para os automóveis.

Há dez vias na capital paulista em que, no pico da tarde, é impossível circular a uma velocidade média maior do que 15 km/h - para se ter ideia, um maratonista profissional costuma correr a uma velocidade média de 20 km/h. Entre elas estão os corredores formados pelas Ruas Clélia e Guaicurus, na zona oeste, onde a média é de 8,3 km/h, e pelas Avenidas Cruzeiro do Sul, Água Fria e Nova Cantareira, onde o percurso fica em uma média de 10,1 km/h.

O estudo da CET divide a cidade em corredores, que costumam ser formados por mais de uma via, ou por sistemas com duas ruas de sentidos contrários, como a Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio, em Pinheiros, que funcionam como um mesmo corredor.

No horário da manhã, considerado o tráfego sentido bairro-centro, a via mais complicada é o corredor das Avenidas Zaki Narchi, Santos Dumont e Prestes Maia, ligação entre a zona norte e o centro da cidade, cuja velocidade média no ano passado foi de 13,9 km/h.

‘Freio de mão’. A pesquisa da CET também estuda quanto tempo o motorista fica parado em cada via congestionada - com o carro ligado, mas sem se mexer por causa do trânsito. Considerada uma média da cidade toda, um a cada quatro minutos dentro do carro, na parte da manhã, o motorista ficou parado, sem se mexer. 

No pico da tarde, o “índice do freio de mão” é ainda pior: em 31% do tempo circulando pelos corredores da cidade, os motoristas ficam parados. 

O dado de 2016 aponta uma piora nesse quesito. Na pesquisa publicada no ano passado, com os dados de 2015, a CET havia apontado que o “retardamento” - nome técnico dessa análise - era de 26% no horário de pico da tarde. Pela manhã, o dado ficou estável.

A análise desse dado explica a velocidade média tão baixa no corredor Henrique Schaumann-Brasil-Pedro Álvares Cabral. Ali, em 61% do tempo gasto para cruzar esse percurso no horário de pico da tarde o motorista fica parado, esperando ou o semáforo abrir ou o trânsito à frente começar a andar. O oposto novamente é a Marginal do Pinheiros, no trecho que inclui as Avenidas das Nações Unidas, Magalhães de Castro e Engenheiro Billings: em apenas 1% do tempo gasto para cruzar a via - no sentido Interlagos - o motorista tem velocidade igual a zero.

De manhã, o pior trajeto fica com os moradores da zona sul que tentam chegar ao trabalho no centro. O corredor das Avenidas Senador Teotônio Vilela, Interlagos e Washington Luís tem um porcentual de retardamento de 46% - o que justifica a velocidade média de apenas 14,6 km/h nessa via. Por outro lado, não há atraso para quem pega o trecho da Marginal do Tietê entre as Avenidas Assis Chateaubriand, Otaviano Alves de Lima, e Presidente Castelo Branco. Ali o tempo parado estimado é igual a zero. 

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