Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Com 500 mil discos vendidos, cantor vai para abrigo de artistas

Aos 69 anos, o mineiro Raimundo José será um dos moradores do Palacete dos Artistas, inaugurado nesta sexta-feira, na região central

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 19h40

SÃO PAULO - Ainda sem ter almoçado, o cantor Raimundo José, de 69 anos, se sentou no balcão de uma padaria, no centro da cidade de São Paulo, e pediu um salgado e um café com leite. Era início de tarde. Por causa do horário, o estabelecimento estava cheio, mas ninguém pareceu dar muito atenção a ele. Fosse 1976, dificilmente teria tanto sossego. É que, naquele ano, lançaria o seu principal trabalho, o disco "Santo Forte", que vendeu mais de 500 mil cópias.

Reconhecido como uma referência da canção popular, o mineiro Raimundo José veio para São Paulo em 1968 e nunca mais voltou. Entre as décadas de 1970 e 1980, a voz que entoava nas casas noturnas da cidade passou também a conquistar espaço nos programas de televisão e rádios nacionais. Depois, foi caindo gradativamente no esquecimento.

No seu último disco, lançado por um selo português em 1998, gravou dez canções populares de Cabo Verde. "Cantor é igual a pipoca: parou de pular, saco", resume com um sorriso imenso no rosto. Ele não para de sorrir.

Trinta e sete anos após o seu maior sucesso, Raimundo José está prestes a ocupar um dos 50 apartamentos do Edifício Palacete dos Artistas. O local, inaugurado pela Prefeitura nesta sexta-feira, 12, é destinado a músicos, atores, bailarinos e artistas de toda natureza com renda mensal de até três salários mínimos e acima dos 60 anos.

Localizado na Avenida São João, bem perto do cruzamento com a Avenida Ipiranga, no antigo prédio do Hotel Cineasta, o imóvel foi desapropriado ainda na gestão Gilberto Kassab (PSD), para locação social e assumido pela atual administração. "Conjuga habitação, cultura e requalificação do centro", resumiu o prefeito Fernando Haddad (PT).

"Considerando as condições em que essas pessoas moravam, muitos sendo despejados, outros em cortiços... Isso aqui é mil", comemorou a atriz Eliná Coronado, de 63 anos, liderança de movimentos que lutam por políticas públicas para artistas e também uma das novas moradoras do Palacete. "Se fica doente ou sofre um acidente, um ator não recebe. Você acha que um locador se sensibiliza quando o pagamento atrasa? Morar aqui vai trazer segurança."

No caso de Raimundo José, o dinheiro que ganhou nos tempos de sucesso investiu no tratamento médico da mãe, quando ela passou nove meses internada em um dos hospitais mais caros de São Paulo, conta. "Mas nunca fui rico", faz questão de dizer.

Atualmente, as apresentações são em eventos menores, como festas de casamentos, e participações com músicos parceiros. Se isso o incomoda? "A vida do cantor é cantar, não importa onde. E sofrimento, meu querido, é psicológico", fala, claro, com o sorriso no rosto.

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