Com 102 denúncias por dia, ‘pancadões’ se espalham por todas as regiões de SP

Com 102 denúncias por dia, ‘pancadões’ se espalham por todas as regiões de SP

Análise do ‘Estado’, com base nos dados da PM, ainda aponta que em dois batalhões as denúncias chegaram a quadruplicar desde 2014: o 45º (Mooca) e o 23º (Itaim-Bibi); focos incluem sobretudo bares perto de faculdades e ruas de favelas

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - “Ozziel, seu vacilão!”, grita um homem, no interior de um ônibus, ao passar na frente do prefeito regional de Cidade Tiradentes e sociólogo Ozziel Evangelista de Souza. “Olha aí o Ozziel, esse é famosinho! Parabéns pelo trabalho”, grita uma menina de sua casa. A fama, para o bem e para o mal, foi conquistada com uma “guerra” travada por ele, semanalmente, desde janeiro, contra os pancadões e bares irregulares com som alto no extremo leste paulistano.

As ações da Prefeitura são consequência. A PM já registrou 27,7 mil denúncias desse tipo na capital até setembro – 102 por dia, segundo mapeamento obtido pelo Estado. Apesar da repressão policial, as denúncias se espalham pela cidade. Entram na conta não só os pancadões com carros de som estacionados em vias públicas, mas também bares que ficam abertos após 1 hora e, com bebida alcoólica e música alta, fazem os clientes dominarem as ruas, que ficam fechadas. 

Já ocorreram 2,8 mil operações policiais contra pancadões neste ano, com mais de 400 pessoas presas.“E há trabalho preventivo para evitar ocorrências, com base no levantamento prévio de locais de maior incidência, para onde as viaturas policiais são direcionadas”, afirma a PM, em nota oficial. 

A Prefeitura também ampliou suas ofensivas, com Operações como a Peixoto Gomide e a Sono Tranquilo, um projeto-piloto que surgiu para atender a uma solicitação do Ministério Público Estadual (MPE) de fechar bares abertos após 1 hora e controlar os “pancadões”. “Na Regional Cidade Tiradentes, existiam cerca de 40 a 50 pancadões aos fins de semana. Após a Sono Tranquilo, existem atualmente cinco eventos, sempre de sexta a domingo, com autorização da regional”, destaca o governo municipal.

Em duas semanas, a reportagem acompanhou duas operações envolvendo diretamente prefeitos regionais: a de Evangelista de Souza, na periferia, e a do prefeito regional Paulo Mathias (Pinheiros), na Vila Olímpia, zona sul. Em ambos os casos, os agentes municipais estiveram acompanhados de Polícia Militar e fiscais para multar estabelecimentos irregulares.

Vezes quatro. Levantamento feito pelo Estado, com base nos dados enviados pela Polícia Militar, aponta que dois batalhões registraram o maior aumento no número de denúncias contra pancadões e barres irregulares desde 2014: o 45.º (Mooca), que atende ocorrências na região central (sobretudo na frente das universidades); e o 23.º (Itaim-Bibi), cujo foco das denúncias está em favelas como a San Remo. Nesses locais o número de denúncias quadruplicou no período.

O prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak diz que o principal foco do problema na região é a Rua Peixoto Gomide, próximo da Augusta. “Tem muito barzinho ali e já fechamos vários. Fazemos operação toda sexta e sábado, com a polícia, mas não tem jeito. Como a molecada fica no entorno, é só sair de lá que eles voltam”, disse. Outro alvo comum de reclamações é o entorno de faculdades, como na Rua Taguá. “Se você fecha o bar, sempre tem alguém que abre a porta do carro e está cheio de bebidas. Existe um limite na nossa ação”, diz o prefeito regional.

No 23.º Batalhão, as reclamações têm como alvo as Favelas San Remo e do Sapé. “Como falta lugar para as pessoas se divertirem, pancadões têm atratividade. Houve muitas operações em Heliópolis e esse pessoal acabou migrando para cá”, destaca o comandante local, o coronel Mario Alves da Silva Filho. “E o fluxo atrai pessoas de Osasco, Carapicuíba, Itapevi…”

Para o promotor de Justiça da Infância e Juventude Eduardo Dias de Souza Ferreira, falta fiscalização até na região central. “Se você for agora na porta das universidades, vai encontrar um monte de estudante de ensino médio que fica no entorno, consumindo álcool. A fiscalização foi precarizada.”

Em nota, a Polícia Militar disse que “não há como apontar motivo específico para o aumento de queixas”. Um dos problemas seria a “mudança dos ‘points’, que jovens começam a frequentar e fechar ruas”. “Tais eventos são voláteis, tendo sua organização baseada em grupos de redes sociais e divulgação em massa por aplicativos.”

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Era por volta de meia-noite quando Ozziel Evangelista, acompanhado dos agentes – um deles com uma metralhadora –, chegou à Rua Apóstolo Tiago Maior. A presença das viaturas já levou a uma fuga em massa dos que participavam do evento e o fechamento quase imediato dos bares no entorno. O denunciante era anônimo: enviou mensagem pelo Facebook. “Este é bairro evangélico, conservador, de família”, dizia.

O prefeito regional foi à frente dos policiais, filmando com o celular na mão e postando nas redes sociais. “Bagunça aqui NÃO”, escreveu aos seguidores. “Vai chegando nosso efetivo. Pessoal com moto e carros estavam fazendo baderna aqui e se retiraram. É a Operação Sono Tranquilo, para garantir o sossego da população de bem da Cidade Tiradentes.” 

Poucos minutos após o fim da abordagem, acontece o primeiro conflito: um rapaz, de idade não identificada, começa a xingar os policiais e GCMs, que respondem com cassetetes. Garrafas e pedras começam a ser atiradas contra os policiais, que avançam com a viatura. “Ele ofendeu os policiais e, quando foi abordado, resistiu”, informou um dos agentes questionados. Após a briga, o jovem acabou liberado. 

Gás de pimenta. Em toda a noite do dia 19 de novembro, houve abordagens em 14 locais, 2 deles registrados como “pancadões”. No último caso, na tabacaria Smoking Bars, na Avenida dos Têxteis, o confronto teve spray de pimenta e até uma “vassourada” – que um dos policiais atirou contra a cabeça de um dos funcionários do bar autuado. A briga começou após os responsáveis alegarem que estavam apenas “limpando” o local. A PM afirmou usar o gás para conter tumultos, após “encerradas as negociações verbais”.

Um funcionário se exaltou com o prefeito regional. “Vai ficar mentindo? Vem para cima, então”, disse, antes de partir na direção de Evangelista para agredi-lo. Ele se defendeu, segurando no pescoço do rapaz e, na sequência, todos os policiais começaram a agredir o homem e outros que acorreram.

Não foi a primeira briga de Evangelista. No início do mês, levou uma garrafada na ação. “Eu não quero atrapalhar a vida de vocês, quero trabalhar. É o meu ganha-pão, sustenta meus filhos”, disse o dono de bar.”Eu entendo”, rebateu o regional. “Mas vocês precisam estar dentro da lei. Não mando nada, só faço a lei ser cumprida.”

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Uma semana depois da operação em Cidade Tiradentes, o prefeito regional Paulo Mathias acompanhou uma operação contra bares irregulares, na Rua Soares de Barros, na Vila Olímpia, zona sul da capital. A ação, chamada por ele de Prefeito Na Madrugada, já atuou em Pinheiros e Vila Madalena, sempre em busca dos estabelecimentos que não respeitam a Lei do Silêncio e de vias fechadas pelos frequentadores desses bares. 

A irregularidade encontrada pela equipe era semelhante à de Cidade Tiradentes: havia um bar aberto, música alta na rua e jovens tomando toda a via, impossibilitando a passagem dos carros. Ali era possível comprar bebida e maconha à vontade. 

Diferentemente da operação na zona leste, nenhum dos presentes saiu com a chegada das viaturas. Mesmo com o bar fechado, a estratégia foi de comprar bebida em outros lugares e voltar para o fluxo. Quando a caminhonete da Prefeitura começou a remover as cadeiras do bar, que precisou ser fechado – o proprietário teve de pagar multa de R$ 8 mil –, uma menina subiu na carroceria do veículo público e começou a rebolar e dançar. “Fora, Doria!”, gritaram os presentes. “Por que não vai cuidar do asfalto, em vez de atrapalhar a diversão dos outros?”, indagou um rapaz. 

“Estamos aqui há dois anos, quase três. Não tem ninguém usando droga, são pessoas de bem, que estudam e vêm aqui para beber”, disse o estudante Igor Sauseda, de 20 anos, filho do dono do estabelecimento. “São alunos de Insper, Anhembi-Morumbi, Mackenzie... aqui não é baile funk. Ninguém vem para ‘causar’ ou tumultuar. Mas parece que a Prefeitura acha que voltamos à ditadura”, lamentou o estudante Mateus Reis, de 18 anos.

Até o prefeito regional foi alvo de questionamentos e protestos e, em um dos casos, entrou no bate-boca. “Por que isso? Eu pago meus impostos”, gritava uma estudante, enquanto filmava o prefeito regional. “O bar não está cumprindo a lei, a lei da 1 hora”, respondeu Mathias. “Que hora?”, questionou novamente a jovem. “A Lei do Psiu. Você não estava acostumada, deve ser amiguinha do Haddad”, ironizou o prefeito regional. “Sou amiga do Haddad. E do Doria, que adora vir aqui. O filho dele estava aqui ontem”, rebateu ela.

A distância. Os policiais acompanharam a distância. “Não é o caso (de agir) aqui”, disse o sargento João Gabriel. 

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O vereador Senival Moura (PT) emprestou caixas de som e palcos para a realização de um pancadão em Cidade Tiradentes nos dias 23, 24 e 25 de junho deste ano. Todos os materiais foram apreendidos pela prefeitura regional, que ligou para o gabinete do parlamentar e pediu a retirada dos materiais. O evento foi chamado de “Quermesse das Casinha” e era irregular. O vereador afirmou que não sabia disso e destacou que ofertou os itens “no intuito de promover interação social e lazer”.

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