'Cidade sem planejamento é ameaça à saúde'

Diretora-geral da OMS lança campanha mundial para alertar sobre a necessidade de uma vida mais saudável

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Cidades podem representar riscos à saúde, alertou ontem a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, ao ser questionada pelo Estado sobre a situação no Rio. A OMS aproveitou o Dia Mundial da Saúde para lançar uma campanha exatamente com essa mensagem. O Rio era uma das 1,3 mil cidades que participaria da campanha por uma vida mais saudável nas metrópoles.

Apesar de indicar que não queria falar especificamente do caso do Rio, Chan deixou clara a mensagem diante dos mais de cem mortos na cidade brasileira. "O que ocorre não é uma surpresa. Por anos, vemos um número cada vez maior de desastres causados pelas chuvas e criando devastação", disse. "Mas precisamos ver se isso é resultado do desmatamento, de falta de planejamento ou falta de preparação. A realidade é que uma cidade sem um plano de urbanização é um risco à saúde", afirmou.

Para Chan, cabe a prefeitos e políticos locais garantir que haja investimentos suficientes e regras claras para evitar esses desastres. São eles, segundo a número 1 em saúde da ONU, que tem o poder de estabelecer onde se pode construir e como evitar desastres. A avaliação da OMS é de que a desigualdade social é o principal motivo das ameaças que uma cidade representa para a saúde da população.

Políticos. Segundo ela, são os políticos quem tem a responsabilidade por mudar essa situação e precisam pensar "nas eleições" ao tomar decisões, insinuando que em democracias prefeitos podem simplesmente perder o cargo se não derem uma resposta à crise. "A urbanização de muitas cidades está ocorrendo a um ritmo fora da capacidade de resposta. Cidades precisam de dinheiro e de vontade política", afirmou. Chan deixou ainda claro que problemas de saúde e desastres em uma cidade ainda "ameaçam a reputação" do local, com consequências para o turismo.

A OMS ressaltou que praticamente todo o crescimento demográfico dos próximos 30 anos se concentrará nas cidades. Hoje, mais de 30% da população de cidades está em favelas. "E 1 bilhão de pessoas vivem nessas condições críticas ", afirmou Chan. Em consequência disso, a OMS prevê degradação das condições de saúde por fatores como insuficiência de infraestrutura, propagação de doenças contagiosas e aumento de doentes crônicos.

Para marcar o Dia Mundial da saúde, mais de 1,3 mil cidades pelo mundo realizariam eventos e atividades. Segundo o mapa distribuído pela OMS, algumas dessas atividades estavam planejadas para ocorrer no Rio, que debateria a questão do meio ambiente e urbanismo.

Ao apresentar esse quadro, Chan assinalou que a aglomeração que habitualmente se observa em meios urbanos desfavorecidos "amplia as consequências de fatores como a contaminação dos alimentos ou da água, os altos níveis de poluição sonora, as substâncias químicas, os desastres naturais e o surto de doenças".

Desafio. O limitado acesso à água potável será outro desafio em um mundo mais urbanizado. Hoje cerca de 94% dos residentes urbanos de países em desenvolvimento contam com pelo menos 20 litros de água por dia em uma fonte a menos de 1 quilômetro de casa, mas os riscos de poluição da água são elevados. A OMS também considerou um grave problema que só 24% da população urbana conte com serviços mínimos de saneamento, como banheiros conectados ao esgoto.

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