Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Em menos de 1 hora, 2 chacinas feitas por motoqueiros deixam 9 mortos

Houve ataques no Jaçanã, na zona norte, e no Campo Limpo, na zona sul; secretário da Segurança Pública não vê relação entre os casos

Alexandre Hisayasu, Luiz Fernando Toledo e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 04h30

Correções: 05/04/2017 | 20h08

SÃO PAULO - As marcas de sangue ainda estão nas paredes das casas da Rua Antônio Sérgio de Matos, no Jaçanã, zona norte paulistana, e movem as rodas de discussão. Já na Rua Professora Nina Stocco e na Rua Carualina, no Campo Limpo, zona sul, as marcas não são tão claras, mas o silêncio dos moradores se destaca. Nas duas regiões, em menos de uma hora, atiradores em motos mataram nove homens e deixaram outros quatro feridos em duas chacinas entre a noite de terça-feira e a madrugada desta quarta-feira, 5.

O secretário da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa, disse que inicialmente não se estabeleceu nenhuma relação entre os crimes. Tráfico e uma disputa por caça-níqueis estão entre as primeiras hipóteses levantadas por investigadores.

Roberta Samara de Souza, de 42 anos, conta que assistia a um programa de TV e já se preparava para dormir, quando ouviu o que chamou de “rajada” de tiros. “Foram pelo menos seis ou sete”, disse. Apesar de o bairro do Jaçanã ter sido palco no ano passado de duas chacinas, em abril e dezembro, os vizinhos da Carlos Guimarães relatam anos de sossego, até pelo fato de o Conjunto Habitacional Jova Rural possuir uma base da Polícia Militar.

O silêncio, segundo relato de ao menos cinco testemunhas ouvidas pelo Estado, foi quebrado pelos gritos de socorro de uma das vítimas da chacina no bar que fica a poucos metros da base da PM. Identificado por vizinhos como José, ele chegou cambaleando por uma escada que liga a rua ao local da tragédia. Moradores começaram a sair de suas casas para atendê-lo. “No começo, as pessoas ficaram com medo de ter alguém atrás dele para executar, mas depois que vimos que não tinha e fomos socorrer”, diz Roberta.

Eram 23h20 de terça-feira. Foi quando dois homens em uma motocicleta prata atiraram na direção do grupo que festejava no bar local. Moradora da mesma rua, uma mulher que pediu para não ser identificada conta que se desesperou ao ouvir os tiros, pois tem um filho que frequenta o mesmo bar onde aconteceu a chacina. “Os rapazes estavam comemorando o aniversário de um deles, foram tomar uma cerveja. Logo me desesperei.” Os criminosos fugiram sem ser identificados.

Cinco homens morreram dentro do estabelecimento e outro na rua. Três ficaram feridos e foram levados aos Hospitais São Luiz Gonzaga, do Mandaqui, e Geral de Guarulhos. O proprietário disse à polícia que não estava no local no momento do crime e não pôde ajudar nas investigações.

A polícia apurou, porém, que o atual dono comprou o bar há cerca de seis meses e tirou máquinas de caça-níqueis e bailes funk do local. Duas vítimas assassinadas trabalhavam para o ex-dono. É investigada a hipótese de um acerto de contas entre donos de máquinas caça-níqueis e traficantes. O que chamou a atenção dos policiais é que, apesar do grande número de vítimas e de tiros disparados, poucas cápsulas foram apreendidas. Para os investigadores, isso é um sinal de que os atiradores “conhecem os meios para rastrear uma arma”.

As seis vítimas que morreram no bar são Sidnei Rodrigues Cordeiro, de 38 anos; Valdir Pereira de Souza, de 46; Adriano dos Anjos Silva, de 39; Wellington Claudino de Souza, de 35; Gilmar Vieira da Silva, de 39; e Fernando, cujos sobrenome e idade não foram informados. Apenas um deles tem passagem pela polícia – por tráfico.

Zona sul. Já no Campo Limpo, próximo da meia-noite, dois homens foram mortos e um ficou ferido na Rua Professora Nina Stocco, na região do Jardim Catanduva. Dentre eles, estava o entregador de pizzas Johnny Felipe Nascimento, de 24 anos, que teria parado para pedir informações, quando duas pessoas em uma moto atiraram, atingindo-o na mão. Além dele, também foram baleados Kayke Santos Moreira, de 20 anos, e Vinicius Aparecido Paula Guedes, de 19, que foram levados ao Hospital Campo Limpo, mas não resistiram aos ferimentos.

Por volta do mesmo horário, Wizmael Correia, de 19 anos, foi morto na Rua Carualina, nos fundos da Escola Estadual Hélio Motta, no Jardim Olinda, também distrito do Campo Limpo. Uma testemunha disse à polícia que dirigia a moto em que estava a vítima e que percebeu estar sendo perseguido por outras duas pessoas também em uma moto. Ele tentou fugir, mas Correia se assustou e desceu. Em seguida, o garupa da outra moto sacou uma arma e atirou.

Nenhuma das vítimas dos dois incidentes tinha passagem pela polícia.

Sem ligação. As duas chacinas são investigadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Mas o secretário da Segurança, Mágino Alves, destacou que as cápsulas nas cenas dos ataques são de calibres diferentes. Segundo ele, isso “não ajuda na ideia de que seja o mesmo grupo de atuação”. “Na cena do crime no Jaçanã, foram encontradas só cápsulas calibre 45. No Campo Limpo, encontraram cápsulas calibre 380 e 9 milímetros.” Ele destacou que os calibres dos armamentos encontrados não são de uso das polícias paulistas. /COLABOROU ISABELA PALHARES

Correções
05/04/2017 | 20h08

O texto foi corrigido para atualizar o número de mortos na chacina no Jaçanã, na zona norte de São Paulo. A Polícia Militar havia informado que sete pessoas morreram após o ataque a um bar, mas a Secretaria da Segurança Pública informou, na noite desta quarta, que seis pessoas morreram em decorrência deste ataque e três ficaram feridas. Portanto, os ataques que ocorreram durante a madrugada em São Paulo (no Jaçanã e no Campo Limpo) resultaram em nove mortes e quatro feridos. 

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