TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Cenário: Ocupar a cidade, como nos cordões de há um século

'A alegria de usufruir da cidade que nunca para de trabalhar desvela diversidade de ritmos frenéticos e fragmentados'

Rosana M. P. B Schwartz *, O Estado de S.Paulo

02 Março 2017 | 03h00

São Paulo de 2017 retoma, sem perceber, tempos passados com seus cordões. No início do século 20, o triângulo central e a Avenida Paulista durante o carnaval eram “ocupados” por jovens de classe média, com seus carros, obedecendo a gestos regrados e a coreografias. 

A cidade da disciplina e da ordem se divertia aos moldes europeus. A elite sentia-se infernizada por esses cordões que não se harmonizavam com a proposta de “brincar” em salões de clubes fechados, controlados, baseados no de Veneza, com máscaras, bandas bem comportadas dando sentido militar para o carnaval-disciplina. Os cordões foram até citados por Olavo Bilac como “abomináveis cordões bacos”. 

Com as transformações provenientes nas últimas décadas dos múltiplos novos movimentos sociais urbanos, conectados pelas redes sociais e que tomaram as ruas em manifestações desde 2013, a consciência de que todos têm direito ao espaço urbano cresceu e mudou a relação dos indivíduos com a cidade e com o carnaval. A alegria de usufruir da cidade que nunca para de trabalhar desvela diversidade de ritmos frenéticos e fragmentados. 

As vias fazem parte do cotidiano das pessoas e o desejo e êxito em “ocupar” criou e recriou, além de novas tensões em seus espaços, a transformação das formas de divertimento como o carnaval.

* PROFESSORA DE HISTÓRIA E SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

 

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