Cenário: É necessário agora repensar a estrutura do Teatro Municipal

'Demissão do maestro pode ser vista à luz de um imbróglio institucional que, se não for resolvido, torna difícil o estabelecimento de um projeto consistente'

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2016 | 05h00

A saída de John Neschling é apenas mais um ato de uma longa ópera que, com o Teatro Municipal de São Paulo como protagonista, está ainda longe de terminar. As investigações devem continuar e as atribuições, serem atribuídas. Independentemente disso, no entanto, a demissão do maestro pode ser vista à luz de um imbróglio institucional que, se não for resolvido, torna difícil o estabelecimento de um projeto consistente.

O Municipal não é apenas um teatro de ópera. Comporta, além de uma orquestra e um coro profissionais, grupos jovens, um quarteto de cordas, escolas, um coro de câmara. O projeto que criou a fundação, goste-se ou não dele, contemplava essa diversidade.

É simbólico que o maestro Neschling não fosse, oficialmente, diretor artístico do teatro, mas da organização social (OS) que dividia com a Prefeitura a gestão da fundação. Foi um recurso usado para que pudesse ser pago a ele um salário que não se submetesse às regras do funcionalismo. Mas institucionalmente criava um problema: para que as decisões artísticas viessem de fora do teatro, a estrutura artística interna precisou ser esvaziada.

A relação confusa entre fundação e OS é um dos problemas do modelo de gestão atual. E levou a uma dualidade que, com o tempo, tornou-se insustentável: de um lado, um projeto pessoal de Neschling e seus assistentes Eduardo Strausser e Tomas Yaksic e, de outro, uma estrutura mais moderna emperrada por velhas práticas. 

O fato é que se tornou necessário repensar a estrutura à luz de uma pergunta que não é feita: qual o sentido da atuação do Teatro Municipal? Como a produção de ópera pode se inserir em um contexto mais amplo? São questões que o maestro Neschling definiu como irrelevantes. 

A saída do maestro do Municipal permite que elas sejam colocadas. Se não forem, o teatro continuará, como definiu no sábado o próprio maestro, “moribundo”. 

 

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