José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Cemitério tenta barrar obra do Metrô

Administração de área no Morumbi entrou na Justiça contra desapropriação para monotrilho; jazigos teriam de ser removidos

Caio do Valle e Fausto Macedo, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2014 | 03h00

A administração do Cemitério do Morumby, na zona sul da capital, tenta na Justiça alterar o traçado do monotrilho da Linha 17-Ouro do Metrô. O projeto da via elevada de trens prevê a desapropriação de uma área onde, segundo os gestores do local, há 15 jazigos ocupados. Para barrar as obras e evitar futuros inconvenientes aos visitantes, o cemitério entrou com uma ação contra o Metrô. A obra terá 18 estações e atenderá 400 mil passageiros. 

A empresa estatal alega que a área a ser desapropriada é parte “não edificável” do terreno. O objetivo do Metrô, que em novembro iniciou o processo desapropriatório, é obter 7,2 mil metros quadrados do local, inaugurado em 1971. De acordo com o projeto, uma faixa de 30 metros de largura do cemitério é “área necessária” para as obras.

Haverá intervenções em três quadras de jazigos. Pelo projeto do Metrô, uma parte da Quadra 1 de sepulcros passará por desapropriação. “Vários jazigos seriam afetados, já com sepultamentos. As famílias também teriam o direito de recorrer, porque essa transferência (de restos mortais) depende de autorização das famílias”, diz o advogado Rui Celso Reali Fragoso, que representa a Comunidade Religiosa João XXIII, que gerencia o cemitério, onde estão enterradas personalidades como Elis Regina e Ayrton Senna.

“Tem gente sepultada lá desde 1975. Dá uns 15 jazigos, mais ou menos”, diz o gerente administrativo do cemitério, Francisco Cláudio Raváglia de Mattos. 

Lotes vazios. Por sua vez, as Quadras 1A e 22 ainda não têm túmulos ocupados. No caso da última, a comercialização dos espaços estava prevista para ter início no ano que vem. A Quadra 22 tem cerca de 4,5 mil lotes para jazigos e a 1A, um total de 1.166. Na sobreposição dos mapas do projeto do Metrô e do plano de sepulturas do cemitério, a reportagem constatou que algumas valas não usadas poderiam ser suprimidas.

Na Quadra 22, um túmulo sai por R$ 18,9 mil. Já na 1A, o jazigo está cotado em R$ 27 mil. Segundo Fragoso, o Metrô sugere, em juízo, o pagamento de R$ 1,7 milhão pela desapropriação.

A administração do cemitério pretende que a desapropriação seja extinta, porque enxerga “ilegalidade” na intenção do Estado. “Se o Metrô tivesse interesse, poderia fazer o projeto subterrâneo, ou paralelo ao cemitério. O aumento do custo não é justificativa para desobedecer a princípios elementares, como o respeito aos mortos”, diz Mattos.

Paraisópolis. Moradores do entorno protestam contra novas mudanças, temendo que elas atrasem ainda mais uma obra que vem sendo discutida desde 2008 - a inauguração do primeiro trecho era prevista para este ano e foi adiada para 2016. “É necessário o monotrilho passar aqui. Para irmos ao centro da cidade, hoje levamos duas horas só de ida”, diz Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. 

“A mudança do traçado inviabiliza o projeto, que já foi altamente debatido em audiências. Esse projeto é a consolidação de muitas opiniões, até mesmo contrárias. Nossa região não pode ficar sem ele”, afirma o líder comunitário. Rodrigues teme que, se a Justiça acatar o pedido do cemitério, a obra, orçada em R$ 3,2 bilhões, atrase ainda mais. “Estava prevista para a Copa”, lembra Rodrigues.

Inviabilidade. Em uma resposta enviada no mês passado por e-mail à administração do cemitério e anexada ao processo, o gerente de Concepções de Projetos Básicos Civis do Metrô, Caio Luiz de Arruda Botelho, escreveu que a companhia analisou a opção de traçado sugerida pelo cemitério e “concluiu que não há viabilidade técnica para atendimento da proposta”.

O Metrô informou, por meio de nota, que “não está prevista a desapropriação de nenhum jazigo” do Cemitério do Morumby. A empresa não informou quando as obras devem começar e terminar no local.

A construção do primeiro trecho da linha foi iniciada em 2012. O ramal vai ligar a região do Aeroporto de Congonhas e a Estação Morumbi, na Linha 9-Esmeralda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O segundo trecho (até a Estação São Paulo-Morumbi, da Linha 4-Amarela) e o terceiro (até a Estação Jabaquara, na Linha 1-Azul) ainda não saíram do papel. O Cemitério do Morumby está inserido no segundo trecho da obra, que terá 6,5 km e cinco estações. A linha inteira terá 17,7 km.

Em junho, a queda de uma viga da obra na Avenida Washington Luís matou um operário.

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