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Casais estrangeiros já adotam 17% das crianças brasileiras

Fabiana Cambricoli - O Estado de S.Paulo

30 Março 2014 | 02h 04

De 3.377 menores de idade que ganharam família desde 2008, 511 foram viver no exterior; regra do CNJ vai facilitar novos processos

Mesmo sujeitos a regras de adoção mais rígidas do que as impostas aos brasileiros, os estrangeiros foram responsáveis por um sexto das adoções feitas no País desde 2008, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Desde que o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) foi criado, há seis anos, 3.277 crianças e adolescentes foram adotados, 511 deles por não residentes no Brasil.

Na segunda-feira passada, o CNJ aprovou resolução que deverá facilitar o processo de adoção por estrangeiros. Com a mudança, eles passarão a integrar o CNA e estarão aptos para adotar crianças em todos os municípios. Até agora, a única possibilidade para estrangeiros era entrar com o pedido nos Tribunais de Justiça dos Estados. "Nesse caso, eles só apareciam como pretendentes disponíveis para as crianças daquele Estado e ficavam invisíveis para os demais", explica Guilherme Calmon, conselheiro do CNJ.

Ele diz acreditar que o número de adoções internacionais seja significativo porque os estrangeiros geralmente se dispõem a adotar crianças com perfis que a maioria dos interessados brasileiros rejeita. "Vemos que os europeus aceitam adotar crianças mais velhas e irmãos, perfil pouco procurado por brasileiros. Com a mudança na resolução, acreditamos que o número de adoções internacionais vai crescer, sempre lembrando que a prioridade vai continuar sendo dos pretendentes nacionais", diz. Segundo Calmon, entre os países com mais interessados em adotar no Brasil estão França, Itália e Espanha.

Representante da Associação Italiana Pró-Adoção (Aipa), uma das entidades credenciadas pelo governo brasileiro para intermediar processos de adoção, a advogada Maria Cecília Sarinho afirma que a medida é boa para os estrangeiros, mas principalmente para as crianças, que terão mais chances de encontrar uma família. "Em alguns casos, o casal espera até cinco anos e, enquanto isso, uma criança com aquele perfil pode estar esperando para ser adotada, mas em um Estado diferente daquele em que o casal entrou com a documentação", diz.

Encontro. Mesmo disposto a adotar crianças de até 10 anos, o casal italiano Moreno Rellini e Loredana Gandolfo, de 46 anos, esperou um ano e meio até ter a oportunidade de adotar uma criança brasileira. Em 2011, a chance veio em dobro. A Justiça de São Paulo, onde tinham entrado com o pedido, apresentou para adoção as irmãs Kauana e Eliza, na época com 9 e 10 anos, respectivamente, sete deles passados em um abrigo em Monte Alto, no interior.

"Sempre quisemos ter dois filhos e quando vimos a foto delas, sentimos que eram nossas", diz Rellini.

Dos 30,4 mil brasileiros interessados em adotar, apenas 2% aceitam crianças acima dos 9 anos, como as duas irmãs. Hoje, 5,4 mil menores de idade esperam por adoção.

Um deles está perto de sair da lista. Na sexta-feira, F.S., de 7 anos, se encontrou pela primeira vez com o casal italiano Massimiliano Simei, de 45 anos, e Lia Carosi, de 47. Agora, os três vão ficar 30 dias vivendo juntos no Brasil, período de convivência exigido pela lei brasileira.

"O primeiro encontro foi emocionante. Ele chegou tímido, mas logo se entregou. Percebemos claramente que há um medo por parte dele, o medo de um novo abandono. Mas vamos fazer de tudo para que ele se sinta acolhido e amado", diz Lia.

As duas irmãs do garoto estão em processo de adoção por outro casal italiano, o que permitirá o contato dos três irmãos.

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