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Casa de parto do SUS atrai classe média

FABIANA CAMBRICOLI - O Estado de S.Paulo

09 Março 2014 | 02h 04

Mulheres com planos de saúde procuram serviço na periferia; público já representa metade dos atendimentos feitos em Sapopemba

Mesmo com acesso a algumas das melhores maternidades privadas de São Paulo, a universitária Mayara Albuquerque Dornelas Vancsek, de 24 anos, não teve dúvidas na hora de escolher onde teria sua filha. Contrariando a família, elegeu uma unidade da rede pública, a 30 km de casa, e diz não ter se arrependido. "Foi a melhor experiência da minha vida", garante.

Mayara é uma das mulheres de classe média, detentoras de planos de saúde, que, em busca de um parto totalmente natural, preferiu dar à luz na Casa de Parto de Sapopemba (zona leste), a única unidade pública desse tipo na capital paulista.

Gestantes com esse perfil já representam metade do público atendido na Casa de Parto, segundo Kátia Patrícia Pires Guimarães, gerente da unidade. "Elas vêm de todos os bairros da cidade e também de outros municípios. Já teve gente de Guarulhos, Sorocaba, Santos. A outra metade é de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde)", conta.  

Mayara fez o pré-natal pelo plano, mas preferiu ter a filha, Aysla, hoje com 2 meses, de forma natural. Na unidade de Sapopemba, o parto é feito por uma enfermeira obstetra, sem interferência. Não há anestesia nem indução de dilatação e é o pai da criança quem corta o cordão umbilical.

Moradora da Lapa, na zona oeste, e beneficiária de um plano de saúde, a gestora em comunicação Bárbara Batista Barbosa de Souza, de 29 anos, diz que o modelo de atendimento dá maior protagonismo aos pais. "É um parto mais consciente, em que a mulher assume uma posição menos passiva. A relação do filho com o pai também muda, porque o homem participa do parto, ajudando a mulher nos exercícios de relaxamento e cortando o cordão", diz ela, que teve o filho Fidel, de 4 meses, na unidade.

Resistência. Se por um lado a Casa de Parto tem atraído mais mulheres de fora do SUS, por outro o número total de partos feitos no local vem caindo ano a ano e, hoje, a unidade atende apenas um terço da sua capacidade, de 60 partos por mês. Para pacientes, a resistência de muitos médicos a esse tipo de parto faz com que muitas mulheres desistam dessa opção.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) não recomendam partos fora do ambiente hospitalar. "O parto está sujeito a uma série de intercorrências físicas que levam risco à mãe e ao bebê. Ele pode ser feito de forma humanizada, mas desde que seja em um ambiente preparado para isso e com um médico ao alcance", afirma Etelvino Trindade, presidente da Febrasgo.

A gerente da Casa de Parto garante que a unidade está preparada para agir se houver complicação. "Temos uma ambulância que fica 24 horas na porta caso seja necessária uma remoção para o hospital. Além disso, só atendemos gestantes de baixo risco", afirma Kátia.

Projeto de lei. Autora do projeto de lei sancionado em dezembro que prevê a ampliação do serviço na cidade, a vereadora Juliana Cardoso (PT) diz que há preconceito da classe médica contra esse tipo de serviço. "Acham que a Casa de Parto é perigosa, mas o trabalho é sério, há todo um protocolo de atendimento. Queremos que o serviço seja expandido para todas as regiões da cidade, com uma unidade em cada região", diz.

Para a funcionária pública Caroline de Vasconcelos Mateus Maciel, de 26 anos, há desconhecimento em relação ao parto natural. "Passei em quatro médicos durante o pré-natal, todos me recomendaram cesárea e foram contra a Casa de Parto. Eu estava bem tranquila sobre a decisão de ter minha filha dessa forma, mas a maioria das mulheres fica assustada", diz ela, que deu à luz Laura, há dois meses.

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