Carnavalesco morre, aos 78 anos, no MA

Nascido em São Luís, João Clemente Jorge Trinta fez carreira e sucesso em escolas de samba no Rio e deve ser homenageado no desfile da Beija-Flor do ano que vem

SERGIO TORRES / RIO, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2011 | 03h05

Memória

Precursor da modernização do desfile das escolas de samba do Rio, o carnavalesco Joãosinho Trinta morreu ontem de manhã, aos 78 anos, no Hospital UDI, em São Luís, sua cidade natal. A morte foi provocada por choque séptico, pneumonia e infecção urinária.

Nascido João Clemente Jorge Trinta em 23 de novembro de 1933, ele mudou para o Rio em 1951, aos 18 anos, onde primeiro trabalhou como escriturário e depois foi bailarino. Chegou a integrar o quadro de funcionários do Teatro Municipal do Rio. Só 11 anos depois passou a atuar no carnaval, na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Integrava a equipe dos carnavalescos Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, famosa por enredos clássicos da história do samba carioca, como Xica da Silva, de 1963. Joãosinho Trinta era o responsável pelos adereços. Após a saída de Pamplona e Rodrigues da escola, ele assumiu em 1973 a função de carnavalesco. A escola ficou em terceiro lugar, com o enredo Eneida, Amor e Fantasia.

A consagração de Joãosinho começou no ano seguinte, quando o Salgueiro se tornou campeão com o enredo O Rei de França na Ilha da Assombração. Foi o início de uma sequência de cinco títulos consecutivos até 1978. As outras conquistas foram O Segredo das Minas do Rei Salomão, mais uma vez pelo Salgueiro, e Sonhar com Rei dá Leão, Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana, A Criação do Mundo e Segundo a Tradição Nagô, todos pela Beija-Flor, escola de Nilópolis, cidade na Baixada Fluminense, que jamais havia vencido um carnaval.

O luxo da escola, até então muito longe da linha de frente das agremiações tradicionais, surpreendeu. Joãosinho Trinta foi criticado por puristas, que o acusavam de desvirtuar a apresentação das escolas, privilegiando ostentação, em detrimento de tradições carnavalescas. É dessa época sua frase famosa: "O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual".

O período foi o auge de Joãosinho Trinta. A partir daí, os títulos escassearam. Ele ainda foi campeão em 1980 e 1983 pela Beija-Flor e em 1997 pela Viradouro, de Niterói, cidade vizinha ao Rio. Dirigiu ainda o carnaval da Acadêmicos da Rocinha, tornando-se campeão em 1989 no grupo 1-D e, no ano seguinte, no 1-C.

Naquele ano, sofreu uma grande decepção, com a derrota do enredo Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, pela Beija-Flor. Apesar do vice-campeonato, o desfile se tornou um clássico do carnaval, com a apresentação de passistas fantasiados de mendigos e uma imagem do Cristo Redentor coberta, por causa da censura da Igreja. Favorita, a escola perdeu para a Unidos de Vila Isabel.

Homenagem. Amigo de Joãosinho Trinta há 49 anos, Laíla, diretor de Carnaval e Harmonia da Beija-Flor, disse, ao saber da morte, que o carnavalesco será homenageado no último carro da escola em 2012. O enredo será o Maranhão. "A homenagem já estava prevista, mas vamos decidir se faremos alguma alteração. João Trinta foi o grande precursor do carnaval moderno. Foi ele, no Salgueiro, o autor da grande mudança, de tirar destaques do chão, porque abriam muitos buracos na apresentação."

Joãosinho Trinta estava no hospital desde o dia 3, respirando com ajuda de aparelhos. Na internação, médicos diagnosticaram pneumonia e obstrução intestinal. No primeiro semestre, o carnavalesco já havia passado 37 dias internado. Seu estado de saúde se complicou depois de 1996, quando um acidente vascular cerebral afetou fala e movimentos. Oito anos depois, um segundo derrame piorou o quadro. Nos últimos meses, ele só conseguia se comunicar por gestos.

O corpo de Joãosinho Trinta deve ser enterrado às 10 horas de amanhã em São Luís, onde também será o velório. O local, porém, ainda não foi divulgado.

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