Capital recebe aves migratórias do sul do continente

Fugindo do frio mais rigoroso, elas buscam também a comida farta, disponível nos parques paulistanos e no entorno do zoológico

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2012 | 03h03

Comida grátis e temperaturas amenas. É isso que atrai uma legião de aves migratórias a São Paulo, fugindo do frio rigoroso do sul do continente, entre maio e setembro. "Julho é o auge", comenta a bióloga Regiane Paiva, do setor de Aves do Zoológico de São Paulo.

"Um exemplo: as aves do extremo sul da Argentina, nesta época de neve na Terra do Fogo, não encontram sua alimentação por lá. Por isso migram", explica o ornitólogo paulistano Johan Dalgas Frisch, presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem e autor do livro Aves Brasileiras.

Todos os anos, o parque recebe mais de 3 mil aves hóspedes, principalmente irerês e marrecas-caneleiras. "Percebemos um pequeno aumento nas marrecas asas-de-seda também, mas ainda não foi realizada uma contagem deste grupo para verificar quais são as migrantes e quais são as residentes", afirma Regiane.

Milho. Esses hóspedes de inverno, que vêm curtir o friozinho na cidade grande, encontram ali, na região do lago do parque, o que mais falta em seu ambiente natural nesta época do ano: alimentação abundante. São vermes, moluscos, plantas aquáticas e, um oferecimento especial do zoológico, ração à base de milho. Para se ter uma ideia, nesses meses os tratadores deixam às aves 400 quilos diários de ração, quase três vezes mais do que no restante do ano.

São uma atração a mais para quem escolhe passear pelo Zoo nesta época do ano. "É possível observá-las vocalizando, descansando, voando... Sempre ao redor do lago", comenta a bióloga Regiane. "A maior parte se concentra aqui no Zoo porque a oferta de alimentos é abundante. Mas também podem ser vistas, nesta época, em outros parques da cidade."

Outras áreas verdes da cidade também abrigam aves viajantes. Um bom exemplo são os parques municipais e estaduais, refúgios perfeitos para essa bicharada. "E não só irerês e marrecas-caneleiras. Há também os passeriformes", acrescenta Regiane. "O que acontece é que, por serem menores, são mais difíceis de serem vistos."

É o caso de papa-moscas-joão-pires, tesoura-do-brejo e verão - calcula-se que São Paulo receba, todos os anos, 50 exemplares deste último. O macho, com sua bela penugem avermelhada no peito e na cabeça é mais fácil de ser identificado. Pode ser avistado às margens da Represa de Guarapiranga e nos Parques do Ibirapuera e da Aclimação. "Aqui encontram insetos para a alimentação", afirma Frisch. "Passam alguns dias em São Paulo e seguem viagem até a Amazônia. Em setembro, retornam à Argentina e ao Uruguai, onde fazem seus ninhos."

Atípico. Frisch conta ainda que neste ano aconteceu um fenômeno atípico. Como choveu nos meses de abril, maio e junho, o tero real - parente do quero-quero - que normalmente migra da Argentina para a região do pantanal mato-grossense acabou aparecendo no interior paulista. "Mais precisamente na região de Rio Claro e Piracicaba, em pequenos brejos ao lado dos canaviais. Trata-se de fato raríssimo", comenta o ornitólogo. "Eu consegui fotografar esse tero real, que tem um comportamento muito interessante, pois seus movimentos lembram os de cavalos de alta linhagem. É de uma imponência espetacular."

A ave se alimenta predominantemente de insetos. É preta e branco, como o quero-quero. "Lembra uma pessoa que se veste com rigor", diz Frisch.

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