Cabral e Paes pedem que população fique em casa; Lula apela a Deus

Impotentes diante da chuva, autoridades culpam 'irresponsabilidade e demagogia' de governantes que permitiram ocupação irregular

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

Impotentes diante da chuva e do número de mortos, as autoridades fizeram apelos dramáticos à população. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou os moradores de áreas de risco a deixarem suas casas, apelou a Deus pelo fim dos temporais e pediu aos patrões que não cortassem o dia do salário dos empregados. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes (ambos do PMDB) insistiram para que a população evitasse sair às ruas.

"Quando o homem lá em cima está nervoso e faz chover, só temos de pedir a Ele para parar a chuva no Rio e que a gente possa tocar a vida na cidade", disse Lula ao deixar o Hotel Copacabana Palace, onde chegou pouco depois das 23 horas de segunda-feira, depois de passar por dois pontos de alagamento no Aterro do Flamengo, no trajeto de carro entre a base aérea do Galeão e a zona sul. Alguns motociclistas que faziam a escolta da comitiva ficaram parados no caminho.

Encostas. As autoridades reiteraram a preocupação com os deslizamentos de encostas, que causaram a maior parte das mortes. Lula dirigiu-se aos moradores de áreas de risco. "Quem mora em beira de córrego, na encosta de morro, em área que possa ter deslizamento, por favor, saia e espere a chuva passar. Vá para a casa de um parente, procure a prefeitura. Só tem chance de brigar para melhorar sua vida se estiver vivo. Não fique arriscando neste momento, porque não ajuda", disse o presidente, depois de uma conversa de meia hora com o governador. "Não existe ser humano no planeta Terra que consiga enfrentar uma mudança de clima como esta. É a maior chuva da história do Rio de Janeiro. Não há possibilidade de o homem vencer, se a intempérie for demais", afirmou Lula.

Cabral chegou ao Copacabana Palace às 11 horas de ontem, com a confirmação de 25 mortos no Estado do Rio. Depois de se despedir de Lula, anunciou que o número de mortes já havia chegado a 40. Em poucas horas, mais de 30 outros corpos seriam encontrados.

Assim como o presidente, o governador atribuiu a tragédia a anos de "irresponsabilidade e demagogia" de governantes que permitiram a ocupação de áreas de risco pela população pobre.

Demagogia. O governador disse que os transtornos no trânsito, nos trens e as ruas alagadas eram menores diante das vidas perdidas. "A demagogia levou a essa situação. Pessoas morarem em áreas de risco não é natural. Você pode ter uma ou outra vítima de um poste que cai na cabeça, de um carro que entra em um buraco. Mas faça um levantamento do número de pessoas que morrem. São os mais pobres, em áreas de risco. Os transportes ficam caóticos, as vias ficam caóticas, mas não matam ninguém. Tudo isso é muito ruim, mas não é tão dramático quanto perder vidas", afirmou o governador.

Cabral lembrou também que foi criticado quando determinou a construção de muros em favelas para evitar a expansão das construções irregulares. "Ninguém está proibido de ir e vir. Não é muro judeu contra palestino, Alemanha Oriental e Ocidental. É muro contra a expansão da irresponsabilidade. A demagogia, o populismo é que fez o Rio de Janeiro ter esse número de mortos", reagiu.

Antes do encontro com Lula, Cabral pediu que a população ficassem em casa e mantivesse a calma. "Peço à população que fique em casa, os que não conseguiram chegar, que tenham calma. É um momento de muita serenidade, de ficar em casa, de não se mexer, de ficar tranquilo. Isso para que a Defesa Civil possa circular nas vias, resgatar os que se encontram em dificuldades, sobretudo os mais humildes", afirmou governador.

Apelos. O prefeito Eduardo Paes evitou discutir ações de ocupação irregular no passado e se concentrou nos apelos à população. "Todas as áreas de encosta da cidade correm risco de deslizamento. Nosso apelo é para que as pessoas, nas áreas de encosta, saiam das casas. Não quero aqui discutir o mérito da ocupação, dos assentamentos, mas é inaceitável que permaneçam correndo risco. A gente pede que saiam para casas de vizinhos que sejam mais seguras, se desloquem para casas de parentes, mas saiam de suas casas, porque as encostas estão muito encharcadas", disse, em entrevista coletiva.

Por causa das chuvas, o presidente Lula cancelou a visita que faria ao Complexo do Alemão, onde inauguraria obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente disse ter visto na TV imagens de comunidades alagadas, incluindo favelas com obras do PAC. No Alemão e na Favela de Manguinhos, o governo do Estado teve de fazer novas obras em condomínios recém-inaugurados, por causa de alagamentos de apartamentos, no início do ano.

"A única explicação para ter água lá (nos condomínios do PAC) é o excesso de chuva. Mas é importante que tenha acontecido para a gente ver o que pode ser feito e não permitir que aconteça outra vez", afirmou o presidente. "Estamos fazendo obras do PAC para mudar esta situação, mas ninguém é mágico. As pessoas têm de contribuir e tem de jogar duro e não permitir novas ocupações", disse o governador. / COLABOROU FELIPE WERNECK

PARA LEMBRAR

Em SP, Lula apontou "culpa gerencial"

Um dia antes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, apontou o volume de chuvas e o crescimento desordenado da cidade como responsáveis pelas enchentes. Era 21 de janeiro. No dia seguinte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na capital, disse que "muitas vezes" há responsabilidade dos governantes nesses casos. "A verdade é a seguinte: muitas vezes existe culpa gerencial porque se sabe onde vai encher e, portanto, poderia resolver", disse. "Se chove em uma hora o que deveria chover em 20 horas, alguma coisa vai acontecer." Em seguida, Lula baixou o tom. "Sabemos também que custam muito caro (obras antienchentes) e, portanto, não vou jogar pedra em nenhum prefeito ou governador." Três dias depois, no aniversário de São Paulo, Lula voltou ao tema. Lembrou que, em 1957, se mudou de Santos para a Vila Carioca, na capital. "Dava enchente todo fim de ano. Não é de hoje que dá enchente". O governador José Serra, que estava ao lado, ficou emburrado com a declaração.

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