Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

Brincar é necessário para poder crescer

Além de estimular cérebro infantil, o trabalho lúdico estreita vínculos familiares; casal cria projeto par estimular brincadeiras com pais

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

Ao fim da segunda licença-maternidade, a publicitária Patrícia Marinho, de 42 anos, começou a se questionar sobre o tempo que passava com as filhas. Para se disciplinar a brincar mais com as meninas, ela começou a escrever em um blog, como uma espécie de diário sobre as brincadeiras que faziam. De um projeto pessoal, o blog TempoJunto passou a influenciar outros pais e virou um livro, com o mesmo nome e que acaba de ser lançado, com dicas de brincadeiras.

“Além de ter ganho uma relação mais próxima com as minhas filhas hoje, com 9 anos e 1 ano e 9 meses, vi que o projeto influenciou pessoas que eu nem conhecia e que diziam ter sido motivadas por mim a brincar mais com as suas crianças”, afirma Patrícia. 

Foi ao ver uma pesquisa que mostrou que apenas 19% dos pais brasileiros consideram a brincadeira como importante para o desenvolvimento de uma criança de 0 a 3 anos de idade que Patrícia decidiu sair do antigo emprego para se dedicar ao projeto. O estudo, de 2013, entrevistou 2 mil pessoas e foi feito pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que promove o desenvolvimento da primeira infância.

A pesquisa mostra também que 12% avaliam que receber carinho e afeto é importante. Os itens que os brasileiros disseram considerar mais relevantes são levar a criança ao pediatra e dar vacina (51%), amamentar (45%) e ter cuidado com a alimentação (31%).

“Os pais não deixam de brincar com os filhos por mal, mas porque não têm consciência da importância para o desenvolvimento da criança e por falta de tempo. Como a rotina é apertada, acabam achando que o mais importante é dar comida, banho, estudo e levar ao médico.” Por isso, o projeto de Patrícia incentiva os pais a brincar com os filhos durante as atividades do dia a dia.

A protética Fernanda Nichii Toma, de 35 anos, conta que sempre gostou de brincar com os filhos de 9 e 5 anos, mas “ficou inspirada” a transformar momentos mais sérios em brincadeira depois de conhecer o projeto. “A rotina com crianças é muito corrida, você tem de se preocupar com muitas coisas e é fácil entrar no ‘automático’, conheço muitas pessoas assim e não é dessa forma que quero educar meus filhos. Quanto mais nós brincamos, mais fortaleço a relação com eles”, diz.

Benefícios. Segundo o psicólogo, membro do Núcleo da Ciência pela Infância (NCPI) e professor da USP Lino de Macedo, a brincadeira estimula o cérebro da criança e é a principal forma de desenvolver as habilidades físicas, emocionais, relacionais e cognitivas. “Para a criança tudo é brincadeira, a hora de comer, a de dormir. Quando os pais ‘entram’ nessa brincadeira, entram no contexto da criança e ela vai aprender mais. Brincar para a criança é mais do que um direito, é uma necessidade. Não deve ser ocasional, mas intencional”, afirma.

Macedo diz que conversar, sorrir e abraçar também são entendidos pela criança como brincadeira. “O bebê fica entusiasmado ao ver os adultos conversando com ele e quer imitá-los.” 

Diversão. O psicólogo alerta para que os pais não tentem “pressionar” o aprendizado e tornar a atividade estressante. “A brincadeira tem de dar prazer, não tem de ser vista como um remédio ou exercício de escola.”

Anna Chiesa, professora da USP especialista em desenvolvimento infantil, diz que é preciso reservar tempo livre para que a criança “não faça nada” e possa brincar em vez de ter uma agenda cheia de atividades como balé, natação, inglês. “Os pais querem fazer o melhor para os filhos, mas acabam contaminados com a competitividade do mercado. Se a criança não brinca de forma livre, ela não desenvolve a criatividade, a fantasia.”

Para Anna, os pais não devem se sentir obrigados a brincar com os filhos de forma intuitiva, mas que o “ brincar” é uma habilidade a ser desenvolvida. “Às vezes a pessoa não tem um repertório de brincadeiras e isso pode ser aprendido e aprimorado, com a ajuda de profissionais de saúde e educação.”

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