Brasília, 50: vencendo o estigma do poder

Salvador e Rio não nasceram como capitais da política, mas pagaram o mesmo preço

Rui Nogueira de Brasília, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2010 | 00h00

 

No filme Todos os Homens do Presidente, os atores Robert Redford e Dustin Hoffman percorrem as ruas de Washington, a capital planejada dos Estados Unidos, e constatam, depois de bater de porta em porta atrás dos personagens do escândalo Watergate: "Todas estas casinhas e estas ruas agradáveis! É difícil acreditar que há algo de errado em uma destas casas!"

Washington empresta a Brasília essa arrumação e origem intrigantes. Em 1974, quando o governo Nixon foi derrubado no rastro de Watergate, assim como em 2009, com o escândalo do mensalão do DEM, do governo Arruda, as pessoas se espantaram com a descoberta de tanta corrupção por trás de tanta esquadria e assepsia urbanas. Não há relação entre arquitetura e malfeitoria política, mas os eleitores enxergam nestas capitais uma evidência: a arte do isolamento dos políticos como forma de se protegerem.

Brasília é uma cidade marcada pelo artificialismo da criação no papel, de ter esquinas planejadas nas pranchetas de arquitetos, caminho inverso à maioria esmagadora das criações urbanas, quando as pessoas chegam aos lugares antes das ruas, quando os interesses dos primeiros habitantes definem tamanhos e locais das esquinas futuras.

Funcionalmente definidas e plantadas em um ponto estratégico do território nacional, estas cidades "planejadas" levam décadas para se tornarem "capital de todos". Levam tempo para desentocar os políticos e fazê-los cruzar normalmente com as pessoas. Enquanto isso, sempre haverá um cidadão indignado que, à falta de um explicação melhor, praguejará contra o poder "daqueles políticos corruptos de Brasília" ? que todos esquecem que nasceram no Distrito Federal e mais outros 26 Estados.

"Corja do Catete". O jornalista e escritor Ruy Fabiano, um carioca de 54 anos que se apaixonou por Brasília em 1979, sintetiza à perfeição o sentido dessas marcas e preconceitos. "O custo moral e político de sediar o poder é, foi e continuará sendo sempre alto", lembra. Depois de recuar ao século 17, quando Gregório de Matos cobrava "honra, verdade e vergonha" de Salvador, Fabiano lembra que, num passado nem tão distante, "o País se referia à "corja do Catete" quando a capital era o Rio de Janeiro".

Como nem Salvador nem o Rio são de nascença e arquitetura artificiais, fica evidente que o problema é com a classe política.

Brasília tem um estigma extra para desbastar: estreou e virou, três anos depois, sede de uma ditadura. De lá para cá, enumera Fabiano no livro Brasília Aos 50 Anos: Que Cidade É Essa?, a capital já conviveu com a "República do Maranhão (Sarney), a das Alagoas (Fernando Collor), a de Juiz de Fora (Itamar Franco), a da USP (Fernando Henrique Cardoso) e a do ABC (Lula)".

De república em república, a democracia foi tomando conta das avenidas de Brasília, desentocando os políticos e transformando a cidade em cada vez mais capital de todos. Está apenas começando, mas já tem história para contar: diretas já, o fenômeno dos caras pintadas, o desfile fúnebre de Tancredo Neves, o fora Collor, a fenomenal massa humana na posse de Lula, as passeatas, as pancadarias entre polícia e manifestantes na Esplanada dos Ministérios, os desfiles dos sem-terra. E o muito que ainda virá, pois a cidade tem míseros 50 anos. / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

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