'Botaram arma na minha cabeça', conta líder

"Era presidente de uma associação de moradores e tive de parar porque botaram arma na minha cabeça", diz W., de Nova Iguaçu, pedindo para não ser identificado. Era o começo da tomada de entidades por traficantes, muitos deles expulsos do Rio pelas Unidades de Polícia Pacificadora. "Disseram: 'Queremos toda a documentação da associação. A partir de hoje, você e toda a sua diretoria estão afastados'", conta. "A população vive refém do tráfico e da polícia. Se não tem policiamento, traficantes fazem o que querem; se a polícia entra muito, bandidos dizem que o morador é que está chamando."

Wilson Tosta, Marcelo Gomes / Rio, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2013 | 02h03

O caso de W. não é isolado, garantem militantes da Baixada Fluminense. O fenômeno já afeta o outrora poderoso movimento comunitário local. Em 2009, o 14.º Congresso da Federação das Associações de Bairro de Nova Iguaçu (MAB), tradicional organização com raízes na ala progressista da Igreja Católica nos anos 1970, teve representantes de 53 entidades. Em 2013, foram 30. Ativistas não mandaram delegados porque estão impedidos de trabalhar por traficantes vindos do Rio.

Nem sempre a penetração do tráfico ocorre por ameaça direta. Outra liderança comunitária identifica a antiga Estrada de Madureira, atual Avenida Abílio Augusto Távora, como um eixo de tráfico e assaltos.

Ele conta que a abordagem dos bandidos às vezes não é diretamente violenta, mas traz uma ameaça velada, que ninguém se atreve a enfrentar. "Chegam para o presidente da entidade e dizem: 'A gente quer alguém nosso na associação'." O avanço do tráfico coincidiu com as UPPs da capital. "Tinha tráfico nesses lugares, mas era pouco. Tinha bairro a que a gente tinha acesso direto. Não tem mais. Para entrar, tem de pedir licença."

Belford. Em outro município da região, Belford Roxo, casas da Avenida Retiro da Imprensa viraram rota de fuga para traficantes do Morro do Castelar. Moradores se queixam de que é comum criminosos pularem muros para fugir da polícia. "Começou quando invadiram os morros do Rio. O tiro come", relata K., que conhece a região, onde criminosos desfilam com arma à mostra e moradores evitam chegar após 22h.

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