Baú de sensações

O que você diria do paladar e do saber gastronômico de um camarada que, ao acordar no meio da noite, tinha por hábito ir também à cozinha e, gulosamente, se servir de uma, duas, três colheres de feijão gelado?

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2012 | 03h05

Pois saiba que o camarada em questão era Pedro Nava, não apenas um dos maiores escritores brasileiros como cultor apaixonado dos prazeres da mesa.

Quem me contou das incursões noturnas à geladeira foi ele mesmo, em maio de 1983, ano e pouco antes de matar-se. Estávamos às vésperas dos 80 anos de Nava, efeméride que sua mulher, Nieta, prometia marcar com um caprichado "forrobodó".

Lamento não ter podido ir, pois eram afamadas pela animação, pela comedoria as reuniões dos Nava naquele vetusto apartamento da Rua da Glória, no Rio, onde viviam desde o casamento, em 1943. Teria sido meu último encontro com o escritor mineiro, de quem era e sigo sendo devedor - e não só pelo encantamento que a cada leitura me proporcionam suas monumentais memórias.

Devo a Pedro Nava, também, e isso felizmente pude lhe dizer, um presente que me fez: um avô quase de carne e osso - isto mesmo, pois até Beira-mar, de 1978, o avô que eu tinha era um busto numa praça belo-horizontina e um espinhento fantasma a quem meu pai e tios, reverentes, se referiam como se falassem de um santo. "Varão de Plutarco!", ouvi de um tio quando menino, e pode-se imaginar o pasmo que sobre mim se abateu, antes e depois de correr ao dicionário.

A esse avô, Hugo Furquim Werneck, Pedro Nava dedica copiosas e emocionadas páginas daquele quarto volume de suas memórias, de ponta a ponta ambientado, apesar do título, em Belo Horizonte, nos anos 20 - e não exatamente para louvar o médico de quem foi aluno e que a certa altura, diretor da faculdade, quis expulsá-lo, por haver acobertado um colega baderneiro.

Ao narrar o episódio, meio século mais tarde, Nava está tomado pelas emoções que experimentou naqueles remotos dias. Sente-se ainda injustiçado, ferido, decepcionado, pois venerava o mestre - ginecologista e obstetra carioca que em 1906 foi consolidar nos ares de Minas a cura de uma tuberculose, e lá acabou passando a segunda metade de seus 56 anos de vida.

Foi este homem, morto dez anos antes do meu nascimento, que Pedro Nava me deu para substituir o busto de bronze e a hagiografia familiar.

Gosto bem mais desse avô que transparece, vívido, verossímil, com suas qualidades e defeitos, no relato do ex-aluno, que o descreve em pormenores - o físico, os modos, o talento para contar histórias, o estopim curto, os desaforos, o rigor ético, a inflexibilidade (para o bem e para o mal), a "linguagem desabrida" de quem "dava nome aos bois". Fez mais o grande memorialista, que na mocidade ensaiara carreira de artista plástico e encantara Mário de Andrade: fez do velho Hugo um retrato tão exato quanto cruel, com jeitos de corpo que reconheço no meu pai e alguns dos tios.

Era assim Pedro Nava: para cutucar a memória e dela extrair o ouro, traçava no papel, não raro em cores, personagens, coisas, lugares. Ao reeditar, recentemente, seus dois primeiros livros, Baú de ossos e Balão cativo, a Companhia das Letras teve a boa ideia de reproduzir alguns desses desenhos - marcados, tanto quanto a prosa do escritor, por um irresistível apelo sensual.

Sensualidade, aliás, é a palavra-chave em Pedro Nava, como de novo constatei dias atrás, preparando palestra para o evento anual do caderno Paladar. Num de seus livros, ele fala "dessa vida passada que me entrou pelos olhos ouvidos narizes". Pela boca também, esqueceu-se de dizer. Pois o Nava gourmand das colheradas madrugais de feijão frio foi também um apurado gourmet.

Seu alegre paganismo se exerce na gulosa evocação de um cheiro, de um gosto, na reconstituição da exata consistência de uma empadinha saboreada na Belo Horizonte dos anos 20. E quando, aqui e ali, ele se derrama nos meandros de uma receita, é com a paixão de que somente são capazes - na mesa ou na cama - os verdadeiros amantes.

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