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Batman prende e amarra ladrão de celular no Capão Redondo

Rafael Italiani - O Estado de S. Paulo

19 Junho 2014 | 11h 33

Dependente químico furtou aparelho de mascarado em padaria; família de viciado criticou ação de ativista e afirma que parente foi tratado como 'cachorro'

SÃO PAULO - O Batman do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, perseguiu, prendeu, amarrou e levou para a delegacia um suspeito de 30 anos que furtou o celular do ativista, no final da tarde desta quarta-feira, 18. O fantasiado que faz parte da liga de heróis Loucos Pela Paz estava com a roupa de herói dentro de uma padaria da região. Após comer um lanche, o Batman deixou o celular sobre o balcão e foi até o caixa pagar a conta. O desempregado Leonardo Carvalho de Lima, de 30 anos, que segundo a família é dependente de crack há mais de dez anos e fica em um farol próximo ao comércio, pegou o aparelho, enfiou no bolso e fugiu do local para trocá-lo por droga.

"Eu parei para tomar um café na padaria, virei as costas para pagar a conta e o cara passou a mão no meu celular. O dono da padaria que me alertou porque estava olhando pela câmera", afirmou Batman. Após ver as imagens, o ativista montou em uma motocicleta e perseguiu Lima pelas ruas do Capão Redondo. De acordo com Batman, ele conseguiu imobilizar o suspeito perto de um ponto de venda de drogas. "Quem rouba celular é dependente químico. Faltava 10 metros para ele entrar no local onde ele iria trocar o aparelho por droga", disse. Após imobilizar Lima, o ativista o amarrou na rua. Na página do Facebook do grupo do Batman, há fotos mostrando e vídeos com o ativista esfregando a bota no rosto do suspeito. Em alguns momentos o Batman chama Lima de "nóia".

O mascarado tinha acabado de sair de uma reunião com a Coordenadoria Regional de Saúde da Prefeitura. Desde maio, ele protesta contra as condições de saúde da região. No último dia 11, o ativista cercou o prefeito Fernando Haddad (PT) no bairro vizinho do Campo Limpo e fez críticas ao secretário municipal de saúde, José de Fillipi Junior. A briga começou após o ativista contrair uma pneumonia e demorar oito horas para ser atendido em uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA). 

Após receber críticas por ter amarrado, esfregado a bota no rosto do dependente químico e divulgado as imagens na internet, o ativista afirmou que "qualquer um pode fazer papel de polícia". Ainda de acordo com ele, assim que amarrou Lima, telefonou para o 190 da Polícia Militar. O mascarado afirmou que a PM demorou mais de uma hora para aparecer no local. O suspeito foi levado pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) ao 47º DP (Capão Redondo), onde foi indiciado por roubo. Após receber críticas por ter feito papel de "justiceiro", o Batman disse que preservou a integridade física do rapaz. "Tinha gente querendo linchar e eu impedi. A polícia demorou demais mas não deixei ninguém bater nele", afirmou. 

Encoleirado. A família do dependente químico pretende acionar a Justiça para processar o ativista pela divulgação das imagens de Lima. Segundo uma das irmãs dele, a dona de casa Silvana Carvalho, 38 anos, o desempregado foi "amarrado como um cachorro" e poderia ter sido morto por populares no local. "Ele pisou na cara do meu irmão, chamou ele de 'nóia', e o ameaçou de morte. Se fosse a polícia que tivesse prendido, tudo bem porque seria levado direto para a delegacia e não correria risco de morrer na rua, encoleirado que nem um animal", disse Silvana. 

A outra irmã de Lima, a assistente administrativa Cintia Carvalho de Lima, de 36 anos, disse que o irmão costuma fugir de casa por causa da dependência química. Ela afirmou que o desempregado fica em um terreno na Estrada do M'Boi Mirim, também na zona sul, consumindo crack. "Nós temos que ir até lá para tirar ele daquela situação. Esse Batman não sabe o que é ter alguém com dependência química dentro de casa", afirmou Cintia. Ela ainda afirmou que o ativista deixou o celular sobre o balcão propositalmente. Ela explicou que Lima costuma ficar em um farol próximo à padaria pedindo dinheiro para os motoristas. "Foi de cansado pensado para prender meu irmão", disse a dona de casa. 

"Não concordo com ele ter roubado. Mas infelizmente ele faz isso para poder sustentar o vício. Em casa não costumamos deixar objetos de valor sobre as mesas para ele não pegar e trocar por droga. Meu irmão não gosta de ser viciado, ele quer se livrar da droga mas infelizmente o crack o condenou", disse Cintia. 

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