Batalha de MCs na Roosevelt mostra força da poesia nas ruas

Grupo se reúne semanalmente para batalhas de tema livre onde objetivo, segundo os Mcs, é compartilhar conhecimento

Gheisa Lessa, O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2015 | 07h00

"Silêncio para o poeta", é o que indica que um MC está prestes a começar seu ataque de rimas freestyle na Batalha de Mcs que acontece todas as quartas na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Com três organizadores, MCs e público se reúnem para trocar de conhecimento por meio de rimas.

 

É fácil identificar o local da praça onde a Batalha da Roosevelt acontece. Eles estão sempre em círculo, e de longe dá pra ouvir palmas e uivos de comemoração enquanto a rinha acontece no centro. Ao se aproximar, consegue-se identificar o beat box - feito por um dos participantes para ajudar os "lutadores" do rap a entrar no ritmo. 

 

A média de público, segundo a organização, é sempre de 20 pessoas, mas curiosos que passam pelo local se aproximam facilmente para ouvir os duelos. Dão algumas risadas, aplaudem e seguem caminho.

 

"Tudo o que eles falam é pura poesia, e poesia das boas", elogia a analista de sistemas, Mayara Vaz, de 24 anos que conheceu a Batalha da Roosevelt através de um convite do primo de uma amiga. Segundo ela, desde a primeira vez que viu o duelo de rimas se apaixonou. "Cada batalha é uma emoção diferente. Com o tempo eu fui conhecendo os MCs e admirando cada um. É como estar num Sarau assistindo um poeta que você admira e torce para que ele ganhe", conta. 

 

No dia em que a reportagem visitou a batalha, Mayara estava com uma amiga, Ariane Siqueira, de 22 anos. "Estou trazendo ela hoje aqui pela primeira vez para ela ver como é interessante", explicou a analista. Ariane, que teve seu primeiro contato com a batalha definiu tudo como "um jogo de criatividade com ritmo".

 

Existem batalhas para todos os dias da semana em São Paulo. Diferentes ligas e regras para outros bairros da cidade. Na da Roosevelt, o tema é "batalha se sangue", ou seja, tema livre - que na maioria dos casos os Mcs acabam partindo para ofensas uns aos outros. Vencer uma batalha exige boas rimas e carisma para cativar quem assiste - é por meio de votação que os organizadores medem pontos. Dois embates de trinta segundos para cada e, no caso de empate, acontece um tira-teima, também de trinta segundos, em que eles dialogam em ritmo de Rap. O vencedor da final leva o prêmio. 

 

"Como a gente não tem investimento nenhum para a batalha, antes da primeira rodada começar, passamos um boné e o pessoal colabora com o que tiver no bolso", conta outro organizador da batalha, Rafael Castro, de 17 anos. Mas para o MC Matheus Moreira, 17 anos, o prêmio não importa e sim o título. "Além de rever os amigos, eu volto sempre para as batalhas pelos títulos. A sensação de se notar bom em uma forma de protesto urbano é o que vale", conta.

 

Matheus é o caçula da Batalha da Roosevelt, mas diz que é fácil encontrar Mcs ainda mais novos do que ele. "Já batalhei com mulher, homem, gordo, magro, mais velhos e mais novos. Nunca dá pra pré-julgar um oponente. De quem a gente espera menos vêm as melhores tiradas", diz. 

 

Enquanto a batalha principal acontece em uma roda, é comum acontecer de outros rappers formarem rodas paralelas de 'flow'. É quando eles brincam de rimar sem competição. O MC Mauricio, conhecido como Bone, de 25 anos, é um dos frequentadores fiéis da Roosevelt às quartas. Para ele, o rap tem uma liguagem própria que intitula "ruologia. "É a linguagem das ruas. Quem chega de curioso em uma das batalhas consegue ouvir que existem outras realidades e que na periferia existe opinião", afirma Bone. 

 

Questionados sobre a organização e maneira como as batalhas funcionam de maneira independente, os Mcs e organizadores concordam com uma melhora: divulgação. "A gente faz acontecer sem empecilho, de maneira fluente, sem coisas que poderiam complicar a natureza da rinha, como microfones, luzes ou aparelhos que tornariam tudo mais profissional, mas que aqui na Roosevelt, por exemplo, se chover a batalha acabada. Do nosso jeito, se a chuva cai, a gente se junta debaixo de algum toldo de bar e continuamos com tudo", explica Rafael. 

Batalhas por SP. As batalhas acontecem com temas diferentes, sempre às 20h, em diferentes pontos da cidade. Abaixo uma lista com as Batalhas que os frequentadores da Roosevelt indicam. Sabe de alguma outra? Mande nos comentários e conte como conheceu a batalha.

Quarta-feira: Batalha da Roosevelt - Praça Roosevelt, Consolação - São Paulo - SP

Quinta-feira: Batalha do Point - Galeria Olido,  Avenida São João, 473 - Centro, São Paulo - SP

Sexta-feira: Batalha da Led - Praça da Led, Rua General Bitencourt, Osasco - SP

Sexta-feira: Sexta Free - Esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, São Paulo - SP

Sábado: Batalha da Santa Cruz - Metrô Santa Cruz, Rua Domingos de Moraes, São Paulo - SP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.