Aversão à desigualdade

Existe um jogo simples que mede a aversão das pessoas à desigualdade. É uma maneira indireta de medir um dos aspectos do senso de justiça. Cientistas usaram esse jogo para analisar o surgimento dessa aversão ao longo do desenvolvimento de crianças em sete sociedades distintas.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2015 | 03h00

O jogo funciona assim. Duas crianças sentam em lados opostos de uma mesa. Na frente de cada uma delas tem um prato vazio. Na frente de cada prato os cientistas colocam um vasilhame com doces. Um para cada uma. O número de doces é determinado pelos cientistas e pode ser observado pelas crianças. Além disso, somente uma das duas crianças tem acesso a um par de alavancas, uma vermelha e outra verde.

Essa criança tem de escolher e acionar uma das alavancas. Se ela puxar a verde, ambos os vasilhames se inclinam em direção às crianças e despejam os doces nos seus respectivos pratos. Isso significa que ela aceitou a partilha dos doces proposta pelo cientista, e cada criança recebe os doces que estavam em seu vasilhame. Se ela puxar a vermelha, as duas vasilhas se inclinam em direção ao centro da mesa e despejam todos os doces em um buraco. Ela rejeitou a partilha. Todos os doces desaparecem e as crianças não recebem nada.

No cenário mais simples, os dois vasilhames contêm a mesma quantidade de doces. Neste caso, as crianças quase sempre escolhem a alavanca verde e os dois recebem a mesma quantidade de doces. Na verdade, a taxa de rejeição da proposta de divisão (puxar a alavanca vermelha) não é zero, mas varia por volta de 12,5% para crianças de 4 anos, diminuindo para zero à medida que a criança fica mais velha.

O segundo cenário é quando a quantidade de doces no vasilhame da criança com o poder de acionar a alavanca é menor do que a quantidade alocada à outra criança. Neste caso, o dilema da criança de posse da alavanca é o seguinte: “Se eu acionar a alavanca verde, ganho menos doces, o que é injusto. Mas, se eu acionar a alavanca vermelha, ficamos ambos sem doce. Se minha aversão à injustiça é alta, prefiro ficar sem doce a aceitar a injustiça de receber menos. Demonstro ao meu companheiro que não aceito essa injustiça”.

Esse tipo de aversão é chamado de “aversão à desigualdade quando em desvantagem” (ADD), pois quem toma a decisão está em desvantagem (com menos doces no vasilhame).

O terceiro cenário é o mais complexo, é a “aversão à desigualdade quando em vantagem” (ADV). Neste caso, a criança com o poder de acionar a alavanca tem mais doces no seu vasilhame. O dilema de quem aciona a alavanca é o seguinte: “A situação é injusta, pois vou receber mais doces do que a outra criança. Mas, se eu acionar a verde, saio ganhando, pois recebo mais doces. Já se eu acionar a vermelha, ninguém ganha nada, mas demonstro que realmente tenho aversão à desigualdade. Rejeito a desigualdade mesmo quando ela é a meu favor”.

Os três cenários foram testados com 866 pares de crianças em sete sociedades distintas: uma cidade pequena no Canadá, uma vila na Índia, uma vila de menos de 1 mil habitantes no México, outra no Peru, no Senegal e em uma vila em Uganda. E, finalmente, em crianças de Boston, nos EUA. Em todas, as crianças foram divididas em grupos etários de 4 a 15 anos.

No cenário em que a criança que aciona a alavanca está em desvantagem (ADD), a taxa de rejeição aumenta à medida que elas ficam mais velhas. Isso vale para as sete sociedades, começando com 25% de rejeição aos 4 anos e atingindo 80% aos 15. Ou seja, independentemente de como e onde as crianças foram educadas, elas adquirem ao longo da infância uma tendência de rejeitar a desigualdade quando se sentem diretamente prejudicadas. Isso significa que essa tendência ou é inata ou faz parte da educação das crianças nas sete sociedades estudadas.

O mais interessante é o que acontece no terceiro caso, quando a criança tem de decidir estando em vantagem (ADV). Neste caso, a taxa de rejeição da desigualdade só cresce ao longo do desenvolvimento em três sociedades: Canadá, Uganda e EUA. Na Índia, ela permanece baixa durante todo o desenvolvimento das crianças. No México, permanece muito baixa (próximo de zero) até os 12 anos e depois cresce um pouco. Já no Peru e no Senegal, ela começa alta (as crianças rejeitam a desigualdade) e diminui ao longo do tempo. Esses resultados mostram que o que acontece no Canadá, em Uganda e nos EUA (aumento da rejeição à desigualdade ao longo do crescimento) é exatamente o oposto do que acontece no Peru e no Senegal.

A conclusão é que, quando em desvantagem (ADD), todas as crianças aprendem a rejeitar a desigualdade. Mas, quando em vantagem (ADV), o resultado varia de uma sociedade para outra. Em suma, o comportamento ADD parece ser cultura independente e o comportamento ADV parece ser cultura dependente.

Esse resultado vai provocar muita discussão. Primeiro, é preciso descobrir o que na educação faz com que crianças de diferentes sociedades se comportem de maneira distinta. Depois, é preciso saber qual o efeito dessa diferença de comportamento na organização social e política dessas sociedades. Agora, me diga: qual resultado você esperaria se esse experimento fosse feito com crianças brasileiras?

MAIS INFORMAÇÕES: THE ONTOGENY OF FAIRNESS IN SEVEN SOCIETIES. NATURE VOL. 528 PAG. 258 2015

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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