Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Autoridade admite reunião em presídio

Ex-governador de São Paulo Claudio Lembo (ex-PFL), no entanto, nega acordo e afirma não saber se bloqueador funcionava

Alexandre Hisayasu, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - O governador de São Paulo na época dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), Claudio Lembo (ex-PFL), nega que o Estado tenha feito acordo com o crime organizado, mas admite que o encontro da advogada Iracema Vasciaveo com Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, contribuiu para o fim das ações da facção.

Lembo, junto com a cúpula da Segurança Pública e da Administração Penitenciária, acompanhou todas as decisões de enfrentamento contra o PCC. No começo da tarde de domingo, dia 14 de maio de 2006, São Paulo já registrava dezenas de policiais assassinados e outra dezena de ataques contra delegacias e batalhões. Ele lembra que recebeu uma ligação do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Eliseu Eclair Teixeira Borges, que tinha uma proposta da advogada Iracema.

“Ele disse que a advogada queria ver o Marcola, se certificar que ele estava bem fisicamente, que não havia sido torturado. E que isso poderia ajudar a encerrar os ataques. Eu não vi problema e autorizei a viagem dela e dos demais no avião da Polícia Militar”, contou. 

O então governador justificou que cedeu a aeronave oficial porque a situação era atípica e precisava de ações rápidas. “Era uma possibilidade de encerrar aqueles motins, por isso autorizei. E autorizaria de novo, se fosse o caso.”

Sobre o fato de o detento Luis Henrique Soares, o “LH”, ter dado a ordem a um outro bandido para encerrar os ataques pelo celular levado pela advogada, Lembo diz que não sabia desse episódio. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes.” Sobre os bloqueadores de celular no Presídio de Presidente Bernardes, o ex-governador afirma que não pode garantir se funcionavam na época dos ataques. “Eu nunca estive no presídio para constatar esse funcionamento. Me informaram que sim (funcionavam).”

Bastidores. O então secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, preferiu não dar entrevista. Mas disse que também não poderia confirmar se os bloqueadores de celular funcionavam perfeitamente naquela época.

Ele lançou um livro recentemente, em que conta bastidores da cúpula do governo durante os ataques de maio de 2006.

Na edição, afirma que a proposta inicial de Marcola, ainda na madrugada de sexta-feira (dia 12) para sábado, para encerrar os ataques era ter a autorização do governo do Estado para que os presos em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) recebessem visitas no Dia das Mães e pudessem conversar imediatamente com seus advogados. Segundo Furukawa, com exceção dele, toda a cúpula da Segurança queria aceitar o acordo. Só depois, o secretário de Segurança na época, Saulo de Castro Abreu Filho mudou de ideia e mandou os policiais enfrentarem o PCC nas ruas. O pedido de Marcola foi negado.

O Estado fez vários pedidos de entrevista para Saulo Abreu Filho, atualmente na Casa Civil, mas ele preferiu não falar.

Perigoso. Para o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, o Estado reconheceu em Marcola um representante da facção criminosa com quem poderia dialogar. “Isso é o mais perigoso, porque quando você empresta esse reconhecimento, você não consegue tirar mais. Você passa a ter um ator dentro dessa sistemática de segurança pública, que é uma liderança dentro de uma organização criminosa, e isso é perigoso.”

Ele concorda que os ataques diminuíram até cessar depois da conversa entre Marcola e a advogada. “A questão é se esse tipo de contato entre o Estado e uma organização criminosa é benéfico ou não. Isso é questionável.”

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