As faces de mais um dia de protestos

Manifestantes voltaram às ruas ontem por várias causas: contra a ‘cura gay’, a PEC 37, a corrupção...

Alana Rizzo, Artur Rodrigues, Bruno Paes Manso, Leonencio Nossa, Marcelo Gomes, Heloísa Aruth Sturm

20 Junho 2013 | 23h11

Pelas ruas de pelo menos 75 cidades do País, um clamor popular por várias causas, de vários rostos, com várias ênfases. Houve quem fosse manifestante de primeira viagem, experimentando a sensação de trocar o Facebook pela bandeira, a internet pelo asfalto. Mesmo os que não sabiam explicar direito o que é a tal PEC 37, manifestaram-se contra a proposta de emenda constitucional que tiraria o poder de investigação do Ministério Público.

O conservadorismo do pastor e deputado federal Marcos Feliciano também foi criticado. Boa parte demonstrou incômodo com a presença de militantes de partidos políticos tentando capitalizar para si as vontades populares – faixas e gritos deixavam claro que as manifestações são apartidárias. Na cabeça dos manifestantes, ontem, uma interrogação em comum: quais devem ser os próximos passos, depois da revogação do aumento da tarifa dos transportes públicos? Diminuir o salário dos políticos, acabar com a corrupção, varrer para debaixo do tapete a ideia da “cura gay”, melhorar as calçadas e deixar os ônibus e trens mais acessíveis foram alguns dos clamores. Mas os rumos dessa agitação são cenas ainda desconhecidas dos próximos capítulos.

Pela rede social

CALADO, NÃO SE MUDA NADA

Convocada pelas redes sociais e contagiada pelas imagens dos protestos em outras capitais, Lorrana Alexandre Vieira, de 16 anos, se juntou a mais duas amigas e percorreu os 25 km – em ônibus — que separam Taguatinga da Esplanada dos Ministérios, ontem.

Estudante do 2.º ano do ensino médio e auxiliar de secretária, Lorrana gasta quase R$ 250 em passagens por mês para se deslocar de casa até o Lago Sul. “E ganho pouco mais de R$ 650.” O pai de Lorrane é motorista e a mãe trabalha na área de limpeza de um supermercado. “A situação também não está fácil na saúde e na educação. Fizeram essa Copa, mas esqueceram de outras coisas importantes.” Segundo ela, participar de um protesto é novidade para todos. “Mas a violência me deixou pouco assustada.”

Foco múltiplo

"MUITA COISA PARA MELHORAR"

O mensageiro Leonardo Abreu, de 29 anos, saiu de São Bernardo do Campo para protestar em São Paulo. “A indignação tenho desde sempre", disse. Assim como muitos dos manifestantes, ele não tem uma reivindicação específica. “A educação, a saúde e muita coisa precisam ser melhoradas.”

Cara pintada

"BRASIL NÃO PRECISA DE COPA"

Larissa Araújo, de 16 anos, mora no Setor P Sul, cidade-satélite de Ceilândia, localizada a mais de 30 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. É uma área reconhecidamente carente do Distrito Federal.

Ela disse que foi aconselhada pelos pais – um vigilante e uma auxiliar de serviços gerais – a não participar das manifestações de ontem.

“Eu tenho medo dessa violência, desse vandalismo. Agora mesmo, me machuquei quando a polícia avançou por causa de alguns que jogaram rojões, mas eu não poderia deixar de estar aqui”, disse.

Ela afirmou que não tem simpatia por nenhum partido. “Todos são ladrões. O problema é sério na saúde e na educação. Eu faço o segundo ano do ensino médio em uma escola de Ceilândia que vez ou outra entra em greve”, reclamou.

“Vim aqui porque o País sofre com a falta de políticos que se preocupam com a vida das pessoas. Não acho que o Brasil precisava realizar uma Copa do Mundo. Agora, hospital e escola, sim, são importantes”, disse.

Larissa mora em uma casa de três cômodos com os pais e duas irmãs. No protesto, ela pintou o rosto com tinta guache, em verde e amarelo.

No embalo

CADEIRANTE QUER CALÇADAS MELHORES

O empresário Ed Rodrigues, de 45 anos, aproveitou o embalo do Movimento Passe Livre para protestar por calçadas melhores. Cadeirante, ele faz parte do Movimento Superação. “Uma vez por ano, protestamos na Avenida Paulista, mas só conseguimos gente suficiente para ocupar meia faixa”, disse. Rodrigues reclama da falta de acessibilidade no transporte público em São Paulo. “Desde 1992, não vejo um protesto assim. Hoje, acredito que a população acordou.”

"Melhor que Facebook"

ESTUDANTE SE EMPOLGA COM A FORÇA DAS RUAS

A estudante Jade Solano, de 17 anos, foi para o seu primeiro protesto ontem, na Avenida Paulista. “Estou achando incrível. As pessoas podem se manifestar pelo Facebook, mas a força de ir para as ruas é trilhões de vezes maior”, exclamou, empolgada. Ela afirma que protesta contra a corrupção, o projeto sobre a cura gay e pelo arquivamento da Proposta de Emenda Constitucional 37 (PEC 37) – que retiraria poder de investigação do Ministério Público.

1ª vez

"ELES NÃO ESTÃO NEM AÍ PARA A GENTE"

Lucas Ribeiro, de 18 anos, disse que gastou uma hora de viagem de ônibus da cidade-satélite de Riacho Fundo II até a Rodoviária do Plano Piloto, em um trajeto de cerca de 30 quilômetros, para participar pela primeira vez dos protestos ontem em Brasília.

Lucas encarta jornais e folhetos em uma empresa do Distrito Federal, em um trabalho que lhe rende R$ 700 por mês. Com esse dinheiro, ele ajuda a mãe, que trabalha como faxineira, e o pai, que aluga brinquedos para festas infantis.

Lucas diz que já terminou os estudos – fez até o ensino médio em uma escola pública. E afirmou que, entre os motivos que o levaram ao protesto, estavam o preço do transporte público e a saúde.

“No ano retrasado, um tio morreu de insuficiência cardíaca. Ele não teve nenhuma assistência no hospital onde foi atendido. Político não investe dinheiro em saúde”, afirmou.

Indagado sobre a situação dos políticos, Lucas respondeu: “Eles não estão nem aí para a gente. No tempo da ditadura, Lula estava aqui, como nós. Hoje está lá, com a vida ganha.”

Enquanto prestava esse depoimento, Lucas interrompia o relato por causa do barulho das bombas e chegou a cobrir o rosto para se proteger do gás lacrimogêneo.

Arco-íris

"TARIFA FOI SÓ UMA GOTINHA NO OCEANO"

A drag queen Tchaka esteve ontem na Avenida Paulista, na região central, para levar “as cores do arco-íris” ao protesto. O advogado e ator disse que já tinha participado das manifestações anteriores contra o aumento da tarifa, mas, depois da redução anunciada anteontem, agora ele grita contra o projeto da cura gay, “contra o bispo Silas Malafaia, contra Marco Feliciano e toda a corja de deputados que estão votando por isso” e contra a PEC 37. “A tarifa foi só uma gotinha no oceano, mas agora tá todo mundo molhado.”

Pela TV

"AS COISAS TÊM DE MUDAR NESTE PAÍS"

A autônoma Suênia Paula da Silva, de 26 anos, participou de uma passeata pela primeira vez, depois de “apoiar as manifestações pela televisão” de sua casa, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

Ela disse que resolveu ir à rua para protestar contra o deputado federal e pastor Marcos Feliciano. “Acho super importante vir para as ruas e se manifestar, porque as coisas têm de mudar neste País”, disse ontem na Avenida Paulista, durante ato que se espalhou pela cidade.

Por curiosidade

‘SALÁRIO DOS POLÍTICOS DEVE BAIXAR TAMBÉM’

Depois da vitória da redução da tarifa, a designer gráfica Amanda Chagas, de 23 anos, e seu namorado, Felipe Valente, também de 23, saíram de Artur Alvim, na zona leste de São Paulo, para ver a manifestação na Avenida Paulista, na região central. Foi o primeiro protesto da vida dela.

“Estávamos curiosos para saber qual era o assunto que estava pegando entre os jovens depois da queda do preço da passagem de ônibus.”

Ela mesma disse que não tinha nenhuma demanda específica para participar do protesto. “Mas acho que o salário dos políticos é muito alto. Deve baixar também.”

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