Arte virtual anima o Metrô

Instalações em 6 estações da cidade ajudam a tornar mais curiosa a espera pelos trens

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2010 | 00h00

A um canto da estação Sé do metrô, no centro de São Paulo, a atriz Alba Brito, de 23 anos, explica à pesquisadora ("no momento atuando como massagista") Marinalva Aparecida da Silva, de 46, que a tela de plantas digitais que ela vê faz parte de uma exposição de arte cibernética interativa...

"O quê!?", ri Marinalva. "Aí eu chego em Guaianases (extremo da zona leste de São Paulo), digo aos meus vizinhos que eu vi a coisa mais linda do mundo e tenho que repetir tudo isso para explicar? Não vou lembrar nunca!"

Alba, que faz um bico como monitora na Exposição de Arte Cibernética - Acervo Itaú Cultural, em cartaz até 23 de maio em seis estações de metrô da cidade, melhora a explicação: "Diz então que você viu um jardim virtual." Marinalva gargalha.

O nome da obra é Ultra-Nature. Nela, o artista mexicano Miguel Chevalier, um dos pioneiros da arte digital, construiu um painel de plantas coloridas que reagem aos movimentos do público, graças a sensores instalados em pontos da projeção.

Carregada de sacolas, a artesã baiana Viviane Ferreira, 37, que acordou às 4 horas para fazer compras no Brás, está encantada. "Se eu tirar a mochila das costas e ficar cinco minutos olhando pra essas plantas, saio novinha", diz ela, a caminho de Mairiporã, onde mora.

Alba orienta algumas crianças a se mexer, virar estátua, pular. Com os olhos bem abertos, a bochechuda Maria Eduarda, de 2 anos, não atende a nenhuma solicitação no momento. "Me coloca no chão, mamãe", pede Sofia, dois e meio, antes de sair batendo palma e gritando para a obra.

Ao todo, 760 mil pessoas circulam por dia só na estação Sé. A exposição se estende pela do Brás, República, Tiradentes, Itaquera e Paraíso. "É muito interessante acompanhar a reação do público. Teve um senhor que veio me consultar sobre a possibilidade de fazer algo parecido na loja dele", conta Rejane Cantoni, uma das artistas que assina a obra OP_ERA: Sinoc Dimension, exposta na República.

Trata-se de uma fileira de linhas iluminadas, como uma persiana vertical, que se move em paredes adjacentes e emite sons ao toque do observador.

"A tecnologia não interessa, o que importa é o objetivo para o qual ela foi desenhada. Graças a ela, você pode apreender a instalação em várias dimensões", explica Cantoni, que expôs a obra em cinco países, mas nunca em uma estação de metrô.

Próxima parada, Paraíso. Ali, tem-se a impressão que o local escolhido para a exposição da obra Les Pissentlits, de Edmond Couchot e Michel Bret, é "fora de mão". Em apenas uma direção os passageiros são obrigados a passar perto das flores que voam quando se sopra em três microfones.

Uma senhora que parece aflita ignora completamente a obra: "Você sabe por onde eu saio na (avenida) Paulista?", pergunta. Outra, igualmente de costas para os dentes de leão voadores, quer saber qual a direção que a conduz à Liberdade.

"Eu faço o máximo para atrair as pessoas, mas acho que falta informação sobre arte no Brasil", lamenta Maíra Rebellato, 22, estudante de restauração.

Em geral, observa-se que o público aumenta diante de determinada obra à medida que o primeiro curioso aparece. Vai parando mais um, outro. E há aqueles que querem chamar mais atenção que a obra. "Mais alguma pergunta mister? Posso ir trabalhar?", pergunta o suporte de internet Luís Góes, 49, interagindo com a obra Descendo a Escada, na estação do Brás.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.