Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Arrastões em ponto de ônibus puxam alta nos roubos e preocupam polícia

Capital teve no 1º trimestre 41.181 registros (19 por hora); o objeto mais visado pelos bandidos continua sendo o celular

Alexandre Hisayasu, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Os assaltos durante a espera pelo ônibus são um crime cada vez mais comum em São Paulo. Investigações da polícia indicam que os arrastões nos pontos, em que até dez pessoas são roubadas de uma vez, se tornaram frequentes e impedem a queda do número de roubos na cidade. O objeto mais procurado é o celular. Na maioria dos casos, os assaltos acontecem pela manhã, por volta das 6 horas, quando as vítimas estão a caminho do trabalho.

A advogada Helena (nome fictício), de 30 anos, foi vítima de um arrastão no ponto de ônibus perto da sua casa, na Vila Cangaíba, zona leste. “Cheguei um pouco antes das 7 horas, quando um homem armado atravessou a calçada para roubar celulares das seis pessoas. Um segundo bandido se aproximou e ajudou na ação.” Helena tentou fazer o boletim de ocorrência pela internet, não conseguiu e acabou desistindo. Hoje, o marido a leva de carro até uma estação do metrô.

Com a universitária Rafaela (nome fictício), de 22 anos, a abordagem foi feita à noite. Eram 20h30 quando ela saiu da faculdade e seguiu na direção do ponto que fica nas proximidades da Avenida da Liberdade, no centro, para voltar para casa. Rafaela foi surpreendida por um homem de bicicleta e armado com uma faca. O ladrão tentou segurá-la, mas ela correu e acabou dominada. O bandido levou a bolsa com documentos pessoais, cartão de banco e um celular que havia acabado de comprar. 

Apavorada, Rafaela foi socorrida por pessoas que presenciaram o crime e descobriu que o ladrão era conhecido na região, por roubar várias pessoas no ponto de ônibus. “Passageiros comentaram que ele costumava assaltar por ali.” A universitária seguiu até uma base da Polícia Militar e ouviu dos PMs que “não poderiam fazer nada, pois não podiam sair do local”. “Orientaram a fazer boletim de ocorrência pela internet. No dia seguinte, preferi ir até uma delegacia e fiz a ocorrência.” O assalto aconteceu no mês passado. Até agora, ninguém foi preso.

Este não foi o primeiro assalto do qual Rafaela foi vítima. Em 2016, ela foi abordada ao chegar em casa, em Santo Amaro, na zona sul. “Estava com a minha irmã. O ladrão nos revistou e não levou nada, porque não tínhamos nada.” Ela reclama da falta de segurança. “Ando com medo.” 

Tendência de alta. De acordo com as estatísticas da Secretaria da Segurança Pública, no primeiro trimestre de 2017 foram registrados 41.181 roubos na capital e 81.981 no Estado. No mesmo período do ano passado, a capital teve 39.670 registros, enquanto o Estado relatou 80.690. Segundo as estatísticas criminais, as regiões com maior aumento de roubos na capital são Vila Santa Maria, na zona norte, de 48 para 129 casos (168,7%); Consolação, no centro, de 183 para 421 (130%); e Santa Cecília, também no centro, de 102 para 198 (941%). Nos últimos 12 meses, enquanto o número de homicídios teve uma queda acentuada, os roubos permaneceram com tendência de alta.

Para a delegada Raquel Kobashi Galinatti, presidente do Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo (Sindesp), o aumento de crimes contra o patrimônio está diretamente ligado à falta de investimentos na polícia judiciária. “A Polícia Civil de São Paulo está com seu quadro envelhecido e desfalcado em meio a uma estrutura que não oferece condições ideais de trabalho. Quanto mais crimes deixam de ser esclarecidos, maior a sensação de impunidade para o criminoso e pior serão as consequências para as pessoas de bem.”

Preocupadas, as Polícias Civil e Militar aumentaram o número de operações em pontos de ônibus para inibir a ação dos criminosos. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que as polícias vêm atuando para coibir os crimes contra o patrimônio, com uso de policiais da Rocam (patrulhamento com motos) principalmente nos horários de pico. Afirmou também que “no Bom Retiro, Consolação e Santa Cecília, a Polícia Civil esclareceu 212 casos no primeiro trimestre, com a prisão de 82 pessoas”. Na Vila Santa Maria, a Polícia Civil esclareceu 37 crimes patrimoniais, com representação por prisão preventiva de 22 pessoas e 4 pedidos de prisão temporária. Segundo a pasta, 170 pessoas foram presas nos primeiro trimestre

Encontrou algum erro? Entre em contato

Análise: Mais investigação e menos receptação

Especialista analisa alta no nº de roubos em SP e fala da necessidade de apuração e responsabilização dos criminosos

Guaracy Mingardi, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 06h00

SÃO PAULO - O roubo de celular está aumentando cada vez mais em São Paulo. Por aqui, é possível fazer o bloqueio por meio do Imei (número de identificação), porém, em outros Estados, não. Isso tem feito com que bandidos de outros lugares venham até aqui para roubar os aparelhos. O fato tem alavancado o aumento de roubos.

Mas não é possível se combater isso sem investir na investigação. A Polícia Civil hoje está sucateada, com cada vez menos policiais. Pode-se culpar a crise econômica, mas o fato é que a repressão falha quando não identifica os ladrões e os receptadores, que são aqueles que compram e repassam os produtos.

Fica cada vez mais evidente que os governos se preocupam mais com a polícia preventiva, no caso, a PM. Não se preocupam com a investigação de crime. A explicação é simples: aumento de crime não derruba governo, que foca os investimentos na polícia que seja mais ostensiva e, por exemplo, evite “bagunça”, como manifestações e depredações.

GUARACY MINGARDI É ESPECIALISTA EM SEGURANÇA

Mais conteúdo sobre:
São Paulo SÃO PAULO Polícia Civil

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.