Aprovados no Enem. Sem festa

Em São Paulo, 4.216 detentos prestaram em 2009 o exame, usado pela primeira vez [br]para atestar a conclusão do ensino médio

Paulo Saldaña /ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2010 | 00h00

Adevaldo Rodrigues Fraga tem 41 anos. Prestou o Enem no ano passado, foi bem e garantiu o diploma do ensino médio. Na história incomum de Fraga, a idade é o que menos conta. Ele fez o exame na Penitenciária 2 de Sorocaba (SP), onde 95% da população carcerária responde por crimes sexuais. Está há mais de 20 anos na cadeia, entre idas, vindas e fugas.

Como Fraga, 4.216 detentos paulistas fizeram o Enem em 2009, quando o exame foi usado pela primeira vez como certificado de conclusão do ensino médio. Destes, 26,2% (1.108 detentos) alcançaram as notas mínimas para a certificação.

Quando foi preso, Fraga não tinha nem o ensino fundamental. "Esta é a vitória da minha vida", diz o detento, condenado a 128 anos de prisão. "Caí cedo nos braços do crime, já fiz muita coisa horrível."

O abatimento (remição) da pena por dias de estudo não está previsto em lei. Apesar disso, juízes já aceitam a remição de 3 dias de condenação para cada dia de estudo, proporção semelhante à concedida aos presidiários que trabalham.

Em maio, Fraga completa 10 anos de confinamento em Sorocaba. Ele garante que não pensou na remição quando decidiu estudar nem tentou calcular quando ganhará a liberdade. "Tenho medo de sair." Afirma que sua referência, agora, são a escola e os livros. "Estudar é para sempre."

Nas salas. Nas cadeias paulistas, 14.859 presos estudam. São 465 turmas, da alfabetização ao ensino médio. As aulas são dadas em classes contíguas aos pavilhões, separadas por grades, em dois períodos: das 8 às 11 horas e das 13 às 16 horas.

No ensino médio, o currículo segue os moldes do Enem. É dividido em quatro áreas: ciências da natureza, humanas, matemática e português.

Para garantir o diploma de conclusão do ensino médio, a pontuação mínima exigida é de 400 nas quatro áreas de conhecimento e de 500 na redação. No exame de 2009, 75% dos presidiários de São Paulo foram aprovados em pelo menos uma área. Assim, podem eliminar parte da prova em avaliações como o exame supletivo do Estado, aplicado no domingo.

Superintendente educacional da Fundação de Amparo ao Preso (Funap), que coordena o ensino nos presídios do Estado, Felipe Athayde Lins de Melo considera satisfatório o desempenho dos detentos no Enem, mas ressalta: "Não preparamos para provas. Nosso trabalho é voltado para o desenvolvimento da competência, uma educação para a vida."

A Funap foi criada em 1976. Desde 2004, todas as aulas são dadas pelos próprios internos - o requisito mínimo é ter concluído o ensino médio. "O preso mobiliza mais, vira referência fora da aula. Além disso, não falta nem atrasa", diz Melo.

Em abril, havia no Estado 516 detentos-monitores, supervisionados por um orientador pedagógico em cada unidade. "O acompanhamento é bem próximo, na preparação de aulas e no trabalho em torno de eixos temáticos", diz o professor Giuliano Verga, de 39 anos, orientador na Penitenciária 2.

Salário. Um dos detentos supervisionados por Verga é Claudinei Valentim, de 34, que considera um "privilégio" trabalhar como monitor. "Me chamam até de senhor." Ele dá aulas de geografia e história. Recebe em troca 1 salário mínimo mensal.

Condenado a 43 anos de prisão, Valentim cumpre pena há 15. Segundo seus cálculos, pode ir em dois meses para o regime semiaberto, no qual os presos passam o dia fora da cadeia. Por isso, o monitor também prestou o Enem no ano passado, com um objetivo mais ambicioso que o de Fraga: entrar na faculdade. "Gostaria de fazer engenharia petroquímica, acho que vai bombar no futuro."

Valentim se destacou na redação - prova na qual o índice de aprovação entre os presidiários foi de 56,7%. Propostas para inclusão digital e até citações a Jim O"Neill, economista criador do termo Brics, garantiram a ele 900 pontos - desempenho bem superior à média nacional, de 605,01 pontos. "Escrevi tanta cartas que aprendi."

Condenado a "27 anos, 7 meses e 10 dias" de prisão, Sandro Allan Rodrigues Calvo também trabalha como monitor. Diz que não prestou o Enem por já ter graduação em Filosofia, pela extinta Faculdade Piratininga. Calvo gosta de citar filósofos como Foucault e Schopenhauer. Conta que na prisão já se esqueceu de cheiros, sons e rostos da vida em liberdade. Restaram os livros. "A classe é o melhor lugar", diz. "Até esqueço que estou preso."

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