Após tragédia, nada muda em Itaoca

Na cidade arrasada por tromba d’água que matou 27 pessoas, construção de casas não saiu do papel nem estrada foi recuperada

José Maria Tomazela, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 19h21

ITAOCA - Um ano depois que uma tromba d’água arrasou a cidade, em janeiro de 2014, deixando 27 pessoas mortas e mais de 300 desabrigados, quase nada mudou em Itaoca, que tem 3,4 mil habitantes, no Vale do Ribeira, sudoeste do Estado de São Paulo. A construção das casas para 92 famílias que perderam os imóveis ainda não saiu do papel e muitos moradores continuam em áreas condenadas.

A rodovia de acesso à cidade não foi recuperada e corre o risco de interdição. Das 12 pontes destruídas no município, apenas uma está sendo reconstruída, mas as obras estão atrasadas. No bairro Lajeado, cansados de esperar por ações do poder público, moradores fizeram um mutirão para construir uma ponte de madeira – só passam veículos pequenos.

Nem o sepultamento da vítimas se completou: os corpos de Maikon Antonio de Oliveira Mota, de 13 anos, e José Gonçalves da Mota Neto, de 5, dados como mortos na tragédia, não foram encontrados. O temporal atingiu a cidade, que fica em um vale, na noite de 12 de janeiro. Em menos de uma hora choveu 200 milímetros, e as águas desceram as encostas como um tsunami, arrastando árvores, postes e rochas. Em poucos minutos, o Rio Palmital, que corta a cidade, subiu 5 metros. Somente no bairro Guarda Mão, 28 casas foram destruídas. Carros, móveis, animais e famílias foram levados pela torrente.

Na época, a prefeitura decretou estado de calamidade pública e estimou o prejuízo da catástrofe em R$ 23 milhões – duas vezes o orçamento anual. Os governos estadual e federal prometeram ajuda. O Ministério das Cidades liberou R$ 2,4 milhões para recuperar áreas urbanas atingidas, mas parte da verba ficou bloqueada. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), que foi à cidade no mesmo dia, mobilizou a Defesa Civil, assumiu a reconstrução da ponte maior e autorizou a construção de casas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano para os desabrigados.

A aposentada Ilda de Oliveira Rocha, de 72 anos, espera a nova moradia na mesma casa em que quase perdeu a vida, no bairro Lajeado, na beira do rio. Ela foi salva pelo sobrinho Maicon Douglas Rocha Ribeiro, de 18 anos, quando já se afogava. “Eu estava sozinha e a água arrebentou a porta, aí comecei a gritar.” Ilda conta que à noite tem dificuldade para dormir. “Quando ameaça chuva, vou para a casa da minha filha.” Em outra casa, duas pessoas morreram e a família decidiu ir embora, deixando o imóvel fechado.

O taxista Iranei dos Santos Souza, sua mulher, Joceli de Assis Souza, e o filho Pietro, de 2 anos, que tiveram a casa levada pelo rio, passaram a morar no prédio da Unidade Básica de Saúde (UBS) do Lajeado, enquanto esperam a casa prometida. “A gente fica incomodada de morar aqui, mas perdemos tudo”, lamentou Joceli. Famílias que permanecem na margem do Palmital, considerada área de risco, vivem assustadas. “Na semana passada choveu forte, o rio subiu e eu saí correndo, com medo que a casa desabasse”, contou a funcionária pública Flávia Cristina Rocha.

Perdas. Na cidade, marcas da tragédia ainda estão por toda a parte. No cemitério, a maioria das sepulturas, abertas às pressas, ainda não tem placas de identificação. A base da Polícia Militar, invadida pelas águas, ocupa um prédio improvisado. “Perdemos documentos, computadores, impressoras, tudo. O prédio teve perda total”, conta o sargento Benjamim Faustino de Almeida. A dona de casa Joelma Franco chora ao falar da morte da filha, Camila Carla, de 19 anos. Ela estava com dois amigos no carro quando a ponte foi levada. Os dois rapazes se salvaram. O corpo de Carla só foi encontrado 15 dias depois. “Tenho outros filhos e a vida precisa continuar”, disse Joelma.

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