Após deslizamento em área de lixão de Niterói, Rio já registra 182 mortes

Suspeita é de que um vazamento de gás tenha provocado o acidente, que atingiu 50 casas; 200 pessoas podem estar sob os escombros

Márcia Vieira, Pedro Dantas, Alfredo Junqueira e Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2010 | 00h00

A tragédia provocada pelas chuvas que caem no Estado do Rio ganhou contornos mais dramáticos com o deslizamento de cerca de 50 casas, na quarta-feira, no Morro do Bumba, em Niterói. O Estado registra 182 mortos, mas o número pode dobrar. Segundo os bombeiros, cerca de 200 pessoas podem estar sob os escombros do deslizamento. O prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), decretou estado de calamidade pública.

As chances de encontrar sobreviventes no Morro do Bumba, no Viçoso Jardim, são remotas. Até as 23 horas, 17 corpos já haviam sido retirados. Mas a operação de resgate é dificultada pelas próprias características do lugar. A expectativa é de que o resgate dos corpos demore no mínimo duas semanas. A favela cresceu ao longo dos últimos 30 anos num terreno onde há 50 anos funcionava um lixão. Foi a pior catástrofe relacionada à ocupação desordenada nesta temporada de chuvas. "Foi muito rápido. As pessoas não tiveram muito tempo para reagir. O que ocorreu foi uma avalanche", disse o subcomandante do Corpo de Bombeiros do Rio, coronel José Paulo Miranda de Queiroz.

Antes do deslizamento, na quarta-feira, os bombeiros foram chamados para resgatar uma pessoa soterrada no morro. Eles chegaram a levar uma retroescavadeira, mas voltaram ao quartel para pegar equipamentos para a noite. Por volta das 21h50, os moradores ouviram um estrondo seguido de uma avalanche de terra. Na segunda-feira, duas casas haviam desabado após um deslizamento.

Um homem de 62 anos estava desaparecido. Algumas pessoas foram retiradas de casas em risco. Pelo menos 30 estavam hospedadas em casas de vizinhos no alto do morro e agora estão desaparecidas. Cinquenta e seis pessoas foram resgatadas com vida. Cerca de 300 homens, entre integrantes da Força Nacional de Segurança, policiais civis, bombeiros e policiais militares, trabalharam nas operações de resgate.

Vulnerabilidade. "Foi uma tragédia anunciada. Áreas que servem como depósito de lixo ou qualquer matéria orgânica são de pouca sustentação estrutural. As construções nessas áreas ficam mais vulneráveis a qualquer deslizamento", afirmou Agostinho Guerreiro, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio. A secretária de Estado do Ambiente, Marilene Ramos, disse que a provável causa do deslizamento foi uma explosão do gás metano em decomposição do antigo lixão. Segundo ela, o lixo em decomposição formou uma bolsa de gás metano que em contato com o ar causou a explosão ouvida pelos moradores. "Trata-se de um terreno insalubre e, ainda que não houvesse tamanha instabilidade, nunca deveria ter sido ocupado", declarou a secretária.

PARA ENTENDER

Segundo geólogos, o risco de deslizamento em lixões é muito maior do que em encostas de solo natural. Isso ocorre porque a estrutura do local é formada de material solto. O solo, ao contrário, tem certa coesão entre as partículas, o que o torna um pouco mais seguro. Além disso, o lixo acumula mais água e fica mais pesado após absorver a chuva - e isso contribui para aumentar as chances de deslizamento.

Especialistas, entretanto, discordam sobre a possibilidade de o deslizamento ter ocorrido após uma explosão de gás. Enquanto para alguns só uma faísca poderia ter causado uma combustão, outros acreditam que a hipótese de queima espontânea do metano ainda é plausível.

O prefeito Jorge Roberto Silveira, que só chegou ao morro 15 horas depois do deslizamento, disse "que não havia nenhuma sinalização de que isso ocorreria". "O lixão estava desativado havia 50 anos. Ninguém poderia imaginar. Lamentavelmente isso ocorreu e estamos estudando as causas e as consequências no entorno", afirmou.

O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), referiu-se ao deslizamento como uma "catástrofe humana e ambiental". Ele fez as observações depois de visitar a área. "Foi uma tragédia de dimensão brutal. Eu fiquei muito impressionado e a perspectiva não é boa", declarou.

Santa Teresa. Na capital, as chuvas já deixaram 52 mortos. No Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, os bombeiros conseguiram retirar mais quatro corpos, aumentando para 22 o número de vítimas. De acordo com os bombeiros, os corpos de pelo menos mais 15 pessoas devem estar ainda debaixo dos escombros e da lama.

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