Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Sem-teto caminham 20 km e governo promete investir em habitação

Militantes do MTST partiram da Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo, para reunião com representantes da gestão estadual; Boulos diz que 'abertura real' de negociação é 'importante vitória'

Priscila Mengue e Bibiana Borba, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2017 | 07h05
Atualizado 31 Outubro 2017 | 20h53

SÃO PAULO - Moradores e apoiadores da Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, fizeram uma marcha de cerca de 23 quilômetros até a zona sul de São Paulo nesta terça-feira, 31. A caminhada saiu da ocupação por volta das 7 horas e chegou ao Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, às 16h20. O grupo se reuniu com representantes do governo do Estado para pressionar a gestão estadual a desapropriar o terreno. Cerca de 7 mil famílias, que vivem no local desde o início de setembro, temem o despejo já autorizado pela Justiça.

Após cerca de três horas de reunião, o secretário estadual da Habitação, Rodrigo Garcia, e o secretário da Casa Civil, Samuel Moreira, anunciaram que o Estado se comprometeu a negociar novos empreendimentos habitacionais em São Paulo. Segundo o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, houve uma "abertura real" de negociação, o que é uma "importante vitória". "A negociação se abriu, mas queremos saber como ela vai se fechar. É um passo importante de outros nós vamos ter que dar."

A reunião foi marcada para a semana que vem para suceder um anúncio de novos empreendimentos que o governo federal deve fazer. Garcia garantiu, contudo, que o Estado também vai ter investimentos próprios e, no caso do terreno de São Bernardo, vai "se esforçar ao máximo" para encontrar "uma solução".

Outra medida anunciada foi a intenção de criar um cadastro das famílias, com informações detalhadas.

Caminhada

O trajeto foi feito por vias internas e não bloqueou a Rodovia Anchieta. Por volta das 10h30, em torno de 5 mil militantes passavam pelo bairro Vila Prudência, no distrito de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo. A previsão era encontrar mais 10 mil pessoas na Estação Morumbi da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) no início da tarde, segundo Boulos. "A gente só sai do Palácio hoje com resposta", disse, antes da partida.

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A marcha já estava prevista antes de a Justiça proibir o show do cantor Caetano Veloso que aconteceria dentro da ocupação nesta segunda-feira, 30. O cancelamento da apresentação, sob o argumento da falta de estrutura e segurança, gerou uma manifestação prévia durante a noite. Em um palco de madeira, participaram do ato apoiadores como o cantor Criolo, as atrizes Sônia Braga, Alinne Moraes, Letícia Sabatella, Marina Person e a empresária de Caetano, Paula Lavigne, além do próprio músico.

Presente desde a noite anterior, o vereador da capital Eduardo Suplicy (PT) dormiu em um dos barracos no terreno. "O Guilherme (Boulos) me convidou para passar uma noite aqui há cerca de um mês. Achamos que essa seria a data ideal, por ser depois do show. Foi um gesto de apoio", comentou ao Estado. "Foi uma noite curta. Ouvi os foguetes por volta das 5 horas, mas dormi mais uma meia hora", disse o vereador, que, como em outras ocasiões, cantou um trecho de Blowin' in the wind, de Bob Dylan.

Pausa para o almoço

Os manifestantes do MTST retomaram às 13h15 a caminhada em direção ao Palácio dos Bandeirantes, após mais de uma hora de pausa para o almoço. As refeições foram distribuídas em marmitas e pratos plásticos e foram preparadas durante a noite e a madrugada anterior por militantes. Entre as responsáveis pela alimentação, estava a auxiliar de administração Ediane Maria do Nascimento, de 34 anos. "Teve feijão, arroz, carne, macarrão,salada. Dormi só duas horas por ter ficado na cozinha."

A jornalistas, Guilherme Boulos ressaltou que o ato é "histórico, absolutamente pacífico e organizado". Segundo ele, o "mínimo gesto" que o governador Geraldo Alckmin pode ter é receber representantes do movimento. "O governo tem que entender que moradia não é caso de polícia,  mas de política pública."

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Militância por moradia

O ato saiu de um terreno de 70 mil metros quadrados que pertence a uma construtora e, segundo o MTST, está ocioso há cerca de 40 anos. Para levantar o número de participantes, a entidade distribuiu fichas que devem ser devolvidas no fim da caminhada.

Entre os militantes, estava a costureira Lucicleide Campos Duarte, de 48 anos, que mora na ocupação com o marido, desempregado, a filha de 10 anos e duas irmãs. É dela a única fonte de renda da família, de R$ 1.500, utilizada também para bancar os remédios do filho de 19 anos, portador de epilepsia. "Sou de Diadema, mas agora eu vou ser de São Bernardo, eu tenho fé", comentou.

Com uma placa de isopor e arame escrita "Eu não aguento mais pagar aluguel", estava o segurança Adilson Teles, de 48 anos, baiano de Poções, há 19 anos em São Paulo. "Eu vim para ajudar a minha cunhada, trazer as crianças dela, mas acabei ficando. Foi o destino. Quando a gente está lá fora, a gente tem uma visão diferente de São Paulo, que aqui é mais fácil de conseguir as coisas”, disse.

O segurança afirma que vai continuar no movimento até conseguir uma casa. "Vinte quilômetros vai ser para mim como se eu tivesse andado um quilômetro, porque sem sacrificio a gente não consegue as coisas. A vontade e a necessidade que eu tenho é tão grande que essa caminhada se torna pequena."

Já a metalúrgica desempregada Jaqueline Severina da Silva, de 27 anos, vai participar da caminhada mesmo grávida de oito meses de Emanuelly Sophia. "Ela vai nascer de parto normal de tanto eu andar na ocupação", afirma ela, que pretende passar parte do trajeto nos dois ônibus disponibilizados pelo movimento para quem precisar descansar.

Também no ato, Isac de Oliveira Messias completa cinco anos nesta terça-feira. "Não tenho ideia de como vai ser essa caminhada, se vai ser cansativa, mas a gente precisa, mora de favor", disse Maria José de Oliveira da Silva, de 42 anos.

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