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Após advogado abandonar sessão, júri do massacre do Carandiru é dissolvido

Laura Maia de Castro - O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2014 | 16h 37

Tribunal terá de marcar nova data para dar continuidade ao julgamento

Atulizada às 22 horas

SÃO PAULO - O júri do massacre do Carandiru foi dissolvido nesta terça-feira, 18, após o advogado Celso Vendramini, representante de 15 policiais militares acusados de 8 homicídios, abandonar o plenário do Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. O tribunal terá de marcar novo julgamento, ainda sem previsão, e compor novo corpo de jurados.

"O Ministério Público está podendo tudo, e eu não estou podendo nada”, disse o advogado, ao jogar a toga e o paletó sobre a mesa e deixar o plenário. Vendramini saiu quando o coronel da reserva Arivaldo Sérgio Salgado era interrogado – na época, ele era comandante do Comando de Operações Especiais (COE) da PM.

Quando o promotor lia trechos do depoimento prestado pelo coronel à polícia 20 dias após o massacre, que aconteceu no dia 2 de outubro de 1992, nos quais Salgado afirmou não ter visto corpos no pátio antes da entrada da PM, a defesa pediu a intervenção do juiz. “O papel dos promotores não é ler depoimento, mas fazer perguntas”, disse Vendramini. Entretanto, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo não atendeu.

Para o promotor Eduardo Olavo Canto Neto, a saída foi um “desrespeito à sociedade”. “Eu estava interrogando um dos réus de maneira educada e de acordo com o que prevê o Código Penal. Provavelmente, o advogado não gostou do resultado das respostas e abandonou o plenário”, disse.

Vendramini afirmou que o abandono do plenário não foi estratégia da defesa e, após o encerramento do júri, ele disse que o juiz estava sendo parcial e o teria chamado de “mal-educado” fora do plenário por ele ter discutido no primeiro dia com os promotores. O juiz não se manifestou sobre a acusação.

Nessa terceira etapa do julgamento, Vendramini assumiu o comando da defesa de réus no plenário pela primeira vez. Segundo a advogada Ieda Ribeiro, que representou os acusados nos dois primeiros júris, a mudança de advogado foi “uma questão de estratégia dos réus”. Ela não quis comentar a saída do advogado do plenário. A quarta etapa está marcada para o dia 17 do próximo mês, quando 15 PMs vão a júri.

Depoimento. O segundo dia do julgamento teve o depoimento contraditório do agente penitenciário Francisco Carlos Leme, ouvido pela primeira vez em tribunal. Arrolado pela defesa, Leme afirmou que havia 75 mortos no Pavilhão 9 antes da ação da polícia. Entretanto, durante o questionamento dos promotores, ele disse que o número poderia ser de 25 presos mortos por arma branca no pátio antes de a PM entrar. A informação não consta dos depoimentos prestados às Polícias Civil e Militar em 1992.

Apesar de dizer no depoimento do ano do massacre que fora agredido por detentos na rebelião, Leme apresentou ontem outra versão. “Nunca levei nem um tapa de preso”, disse. Ao ser questionado pelos promotores, afirmou ter se lembrado de uma paulada em um dedo. “Não foi nada”, disse. O ex-secretário de Segurança Pedro Franco de Campos também prestou depoimento pela defesa. / COLABOROU LUCIANO BOTTINI FILHO