JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Após 105 anos, Clube Tietê fecha

Funcionários da Prefeitura vão despejar instituição que revelou talentos do esporte

Edison Veiga - O Estado de S. Paulo,

26 Novembro 2012 | 23h13

SÃO PAULO - Para um clube originalmente de regatas, a imagem não poderia ser outra: o capitão da embarcação, sozinho, vendo-a naufragar em um silêncio contemplativo. Ontem, o presidente do Clube de Regatas Tietê, Lauro de Melo Carvalho, de 78 anos, passou o dia assim, quase solitário, concedendo entrevistas na sede da agremiação. Amanhã, promete estar a postos quando funcionários da Prefeitura despejarem os pertences do clube.

Após 105 anos de história, o clube deixará o terreno de 50 mil m² no Bom Retiro, no centro, às margens do Rio Tietê, cumprindo decisão da 6.ª Vara da Fazenda Pública. A Justiça determinou a devolução do imóvel à Prefeitura. A última concessão, de 40 anos, havia vencido em outubro de 2009 – desde então, o clube brigava judicialmente com o poder público. Em nota, a Secretaria de Esportes informou que o espaço será transformado em centro de formação de atletas de alto rendimento e iniciação esportiva aberto à comunidade.

"Parece mentira", diz Carvalho, com os olhos avermelhados. "Mas é verdade", conclui, após longa pausa. De acordo com o advogado do clube, Caio Marcelo Dias, 47 funcionários do Tietê foram demitidos no sábado. "Eu ainda acredito que vamos conseguir voltar, talvez por causa da pressão popular. O Tietê é muito grande", diz Carvalho. "Perdemos todos os recursos. Agora não tem mais volta", rebate o advogado, cético.

Ambos também dizem ser impossível que o clube seja transferido para outro lugar. "Não há condições financeiras para isso", diz Dias. De acordo com o presidente, o clube tem 1,5 mil sócios, que pagam R$ 40 por mês. O Tietê acumula dívidas trabalhistas de R$ 35 milhões.

"É uma situação supertriste para todo mundo, para o esporte, para São Paulo", comenta a tenista Maria Esther Bueno – tricampeã de Wimbledon em 1959, 1960 e 1964 –, revelada nas quadras do clube. Ontem, ela telefonou para Carvalho e perguntou sobre o destino da estátua que existe em sua homenagem na sede do Tietê. "A Sociedade Harmonia do Tênis, entidade à qual sou vinculada hoje, já se ofereceu para guardá-la", comenta. Carvalho diz que precisa definir a questão com os demais diretores do clube.

A sala com os 2,5 mil troféus e medalhas, entretanto, deve ser mantida. "A Prefeitura declarou a intenção de transformar nossa sala de troféus em um memorial ou algo assim", diz o advogado.

Além de Maria Esther Bueno, o clube se orgulha de ter revelado outros talentos. Caso dos nadadores Abílio Couto – recordista mundial da travessia do Canal da Mancha – e Maria Lenk – recordista mundial dos 200 e 400 metros de nado peito.

As duas instituições de ensino que funcionam no mesmo endereço, a Escola Aldo Boroncelli, mantida pela agremiação, e a Faculdade Zumbi dos Palmares, instalada em um dos prédios da sede desde 2010, devem ser mantidas, pelo menos por mais algum tempo.

No ginásio. O despejo do Tietê deve ser feito amanhã, quando cerca de 25 funcionários da administração municipal serão enviados ao local. "A Prefeitura autorizou que deixemos a maior parte desse material dentro de um ginásio, até definirmos o destino final", explica o advogado Dias.

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