Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Aos domingos, ninguém quer derrubar o Minhocão'

Arquiteto que tem entre suas obras a sede do canal TV 5, em Paris, defende reformas à derrubada de prédios

Entrevista com

EDISON VEIGA, MÔNICA REOLOM, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2014 | 02h07

Ele é radicalmente contra demolições. Quaisquer demolições. Por economia e pelas possibilidades que uma reforma oferece a algo já erguido. "Não precisamos matar ninguém por causa de uma dor de dente", compara. O arquiteto francês Frédéric Druot esteve em São Paulo no início do mês, a convite da Escola da Cidade. Autor do livro Plus, ele tem no currículo obras como a sede do canal televisivo TV5 Monde, em Paris. Confira trechos da entrevista ao Estado.

Qual sua opinião sobre nossos problemas urbanos?

Fiquei fortemente impressionado porque São Paulo, ao contrário de Paris, aceitou sua modernidade. Vocês fizeram da coisa contemporânea o seu cotidiano, e não a sua exceção. Posso dizer que São Paulo é uma cidade de vida. Eu adoro São Paulo por essas razões e pelo relacionamento que ela faz entre sua escala e seu caos, a estratificação de seus movimentos e suas luzes, pela potência inacreditável de uma vegetação sempre pronta a assumir as construções, o asfalto das vias, o pavimento das calçadas. Não conheço precisamente as dificuldades paulistanas, mas as imagino: problemas de habitação, fortes contrastes sociais, problemas de mobilidade. Mas penso que a capacidade de prazer deve ser posta em primeiro lugar. Prefiro falar e observar o que há de bom antes de falar sobre o que não funciona. De um ponto de vista metodológico, São Paulo permite que milhões de pessoas vivam e trabalhem, ou seja, apresenta capacidades inacreditáveis, sem planificação global. A resolução das dificuldades poderia ser simples e permitir, em uma economia controlada e frágil, uma evolução notável e generosa. É preciso para isso que haja decisões políticas não convencionais. É preciso se endereçar aos milhares de arquitetos brasileiros talentosos e colocar a questão: "como podem vocês aumentar generosamente o prazer de viver essa ou aquela situação urbana, a cada local, ponto por ponto?". A potência política urbana tem um dever, que é o de se endereçar a cada um e a todos. Resta o crack, o poder de compra, a precariedade, a equidade social, que são problemas políticos e que, sozinhos, a arquitetura não pode regrar.

O senhor é contra qualquer tipo de demolição. Poderia explicar as razões para essa postura?

É uma posição radical, que não deixa espaço ao talvez. É uma posição ao mesmo tempo política, social, arquitetônica e econômica. Política porque ela pertence à organização da cidade. Geralmente, uma decisão de demolição é tomada por uma organização que não participou da construção do prédio ou do bairro que ela pretende assassinar. Social, porque a decisão geralmente é tomada por organizações que não têm o uso da coisa a demolir e porque, quando se demole um imóvel de residência, se demole a residência de qualquer um, de uma família. Arquitetônica e econômica, porque o bom senso gostaria que se utilizasse o preço das demolições de imóveis existentes para fazer, com o mesmo orçamento ou menos, um projeto novo, com dois, três vezes mais espaço, mais conforto, mais luz, mais prazer. A meu ver, planificar as demolições de bairros, imóveis e estradas é uma proposição preguiçosa de urbanistas e de poderes políticos.

O senhor defenderia a reforma em vez da demolição de casos emblemáticos, como os edifícios São Vito e Mercúrio?

Mil vezes, sim... Mas é tarde demais. Eu olhei a implantação desses prédios no bairro, a organização de suas plantas, o sistema construtivo dos andares e das fachadas. Nada me parecia perigoso a ponto de necessitar uma demolição. A problemática da densidade da população no interior do prédio não tem nada a ver com a capacidade estrutural do imóvel. A questão que foi abordada era social e não arquitetônica ou urbana. A gente não precisa matar ninguém por causa de dor de dente. Assim, a pergunta é: como melhorar as condições de vida dos habitantes? Graças a algumas adaptações e evoluções, pode ele se tornar mais eficiente? Se nós não podemos acomodar todo mundo ali, o que podemos oferecer àqueles que não cabem nesse prédio? Se, ao final de todas essas questões, a resposta definitiva for que o imóvel não pode mais abrigar residências, então por que imaginá-lo como viável para outras funções, sejam elas escritórios, comércio, atividades sociais, culturais ou religiosas? Mas não demolir!

E o Elevado Costa e Silva, o Minhocão? Parte da sociedade pede há décadas a demolição...

Aos domingos, ninguém quer derrubar o Minhocão. Porque ele se transforma em uma pista para bicicletas, em uma área de lazer. E, se ele for demolido, onde vão passar as centenas de milhares de carros que precisam da via diariamente?

Qual aspecto de São Paulo mais chamou a sua atenção?

O sorriso das pessoas.

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