ANÁLISE: vinte centavos bastam

O recuo de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, em relação às manifestações que tomam a cidade, foi indisfarçável e estampou as primeiras páginas dos principais jornais. O posicionamento frio do prefeito, assemelhado ao de técnicos biônicos do passado, e a postura beligerante do governador - poder-se-ia chamá-lo "Erasmo" Alckmin? - mudaram radicalmente, num cavalo de pau forçado pelas circunstâncias e pelos erros que eles próprios cometeram. E, por isso, foram obrigados a desdizer o que se disse como se antes não dissessem absolutamente nada - e, de fundamental, foi quase tudo o que de fato disseram.

Carlos Melo,

18 Junho 2013 | 02h01

Em Paris, na monotonia burocrática dos cargos que ocupam, foram pegos de surpresa. Agiram extemporaneamente como se lidassem com um bando de garotos. E não perceberam que os vinte centavos de aumento das tarifas eram muito mais que um dinheiro de troco. Que, na verdade, continham o potencial do repúdio ao processo crescente de desgaste e ineficiência do Estado e do sistema político, retratado na cidade que deixou de funcionar, há tempos. Lugar em que se localizam concretamente os problemas da nação e a tragédia cotidiana abraça a cidadania que, em vários aspectos, passou a valer muito menos que uma moeda.

Ora, quem há de negar que a qualidade de vida nos centros urbanos tangencia o desespero? A imobilidade urbana, a vertiginosa e sufocante verticalização, a baixa qualidade da saúde, o descaso com a educação, as enchentes, o custo de vida... E, é claro, a insegurança: já esquecemos que o noticiário dos últimos meses veio recheado de casos os mais escabrosos, os quais o governador teima em transformar em mera questão de menoridade penal? Alguém é capaz de negar que, em 12 de junho, Dia dos Namorados, a principal preocupação na cidade era se haveria ou não arrastões pelos bares e restaurantes naquela noite?

Alckmin e Haddad negligenciaram o potencial explosivo da situação; a presidente da República e os partidos políticos, todos, também. Voltado quase que exclusivamente à manutenção mecânica de espaços de poder, o sistema político nacional deixou de olhar e sentir a pulsação social, o clima das ruas; a nova sociedade. E é hoje incapaz de compreender, canalizar demandas e representar os cidadãos. Sim, ainda que menos comuns e mais difusos que no passado, há cidades e cidadãos que reagem ao mal-estar que suas autoridades não percebem. Será sempre questão de tempo para que uma fagulha ilumine perigosamente o paiol. Coisa pouca, vinte centavos bastam!

* CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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