DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Análise: Sem acordo entre Prefeitura e Estado, pode haver conflito na Cracolândia

'Um fator fundamental é que o jogo deve ser combinado antes. O planejamento deve ser conjunto'

André Zanetic, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2016 | 03h00

A criação da nova unidade da Guarda Civil Metropolitana na cracolândia tem de estar muito bem planejada e conversada com a Polícia Militar, ou seja, entre Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado. De outra forma, pode haver margem para conflitos, ao não haver entendimento dos limites de cada uma das forças. A GCM não pode desempenhar atividades que ultrapassem o seu caráter preventivo e comunitário, que deve sobressair. Um fator fundamental é que o jogo deve ser combinado antes e esse planejamento deve ser conjunto. É por isso que insistimos tanto na criação de uma instância de negociação. Tem que haver reuniões antes das ações, entre o Estado e Município, para que haja um acordo. Quando você tem duas diferentes forças de policiamento agindo, sem uma conversa é muito difícil estabelecer limites para garantir que as forças se entendam.

 

A guarda municipal não é polícia. Muitas vezes isso gera uma confusão porque cada vez mais a GCM tem ampliado suas atividades complementares ao policiamento. Às vezes, na prática, há confusão entre os próprios guardas, que por vezes extravasam o seu papel, desempenhando ações similares às da Polícia Militar. O guarda deve lembrar, e ser formado para tanto, que em qualquer situação que extravase o limite de atuação da GCM a Polícia deve ser chamada. 

 

Há uma questão muito específica na cracolândia. Existe um grave problema social, relacionado à dependência química dos indivíduos que moram nesses locais, entre os quais muitos fazem parte de programas específicos de recuperação. A Polícia e a GCM, ao atuarem conjuntamente nesses locais, precisam combinar muito bem essas ações entre si e com as entidades que realizam assistência no local. Ações muito exacerbadas, como a que ocorreu para coibir o tráfico de drogas e a ação do MSTS no dia 05/08 que envolveu o Cine Marrocos, acabam dificultando a ação desses programas sociais na região.

Essas políticas de recuperação de dependentes químicos dependem muito da confiança das pessoas na polícia e nas entidades diretamente responsáveis pelas políticas. Qualquer ação policial na região da cracolândia deve, portanto, ser planejada em conjunto com as demais entidades que atuam na área, de forma a proteger as ações sociais que estão sendo conduzidas. Não pode acontecer o que houve naquele dia, em que ninguém se comunica. A falta de comunicação é um problema grande de descoordenação de políticas e atrapalha o projeto de recuperação das pessoas.

ANDRÉ ZANETIC É CIENTISTA POLÍTICO E PESQUISADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA (NEV) DA USP

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