WERTHER SANTANA/ESTADAO
WERTHER SANTANA/ESTADAO

Análise: É o fim da Cracolândia?

'Erroneamente acreditamos que problemas de segurança pública são resolvidos unicamente com ações policiais'

Rafael Alcadipani, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 03h00

Após um longo trabalho de investigação, a Polícia Civil realizou neste domingo, 21, uma megaoperação contra traficantes que operavam na Cracolândia, em São Paulo. A operação foi bem mais completa, precisa e organizada do que as intervenções anteriores da Polícia Militar. Porém, até que ponto a ação vai acabar com a Cracolândia?

Erroneamente acreditamos que problemas de segurança pública são resolvidos unicamente com ações policiais. Há vasta evidência científica que mostra que a polícia consegue resolver uma pequena parcela do problema, ainda mais em se tratando de drogas. Se quadrilhas de traficantes precisam ser desbaratadas e só com inteligência policial isso é possível, como vimos na ação em São Paulo, há muitos sinais de que a guerra às drogas já se mostrou inócua. 

Diante disso, é urgente que haja uma série de medidas sociais para que os dependentes químicos consigam largar o seu vício. Este é um caminho árduo, pois a solução de vícios está longe de ser simples. O apoio aos dependentes é ação de longo prazo, com a presença de equipes multifuncionais de especialistas. Assim, junto com a ação policial, o poder público precisaria ter apresentado um nítido plano de ação social e de saúde, detalhando como os dependentes serão tratados.

Era importante, ainda, que houvesse uma discussão com diferentes atores da sociedade envolvidos com a Cracolândia. Sem a devida integração de vários atores da sociedade e do Estado, o risco é de que a ação de hoje se mostre uma mera estratégia de marketing sem a efetiva resolução do problema. Há risco expressivo de que a Cracolândia migre da região central para outras regiões da cidade, no formato de minicracolândias.

No limite, as pessoas que são vítimas do vício ficam entre a ganância e a exploração dos traficantes e a falta de competência e sensibilidade do Estado. A experiência mostra que começar a vencer as drogas é muito mais uma questão de políticas públicas efetivas de continuidade no longo prazo do que caso de polícia. 

* RAFAEL ALCADIPANI É PROFESSOR DA EAESP-FGV E MEMBRO DO FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA

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