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Análise: 'Caos dos transportes castiga os mais pobres'

'Enquanto a opção pelos veículos movidos a gasolina for mantida, situação tende a piorar, com novas manifestações'

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Roberto Romano

08 Janeiro 2016 | 23h29

Os serviços públicos, no Brasil, constituem perene insulto à cidadania. Os transportes não servem ao seu fim, como aliás a maioria esmagadora dos instrumentos postos à disposição do coletivo, como a saúde, a educação. Em 2013, os movimentos contrários à elevação das tarifas levaram milhões de pessoas às ruas. 

Os políticos, acostumados a não ouvir protestos, se assustaram e deram marcha a ré em iniciativas tirânicas. Citemos o fim da PEC-37, a não atenuação da Lei de Improbidade Administrativa, a manutenção da Lei da Ficha Limpa, normas legais que estavam na mira dos improbos. As manifestações, assim, tiveram resultados positivos, apesar da diminuição numérica dos ativistas.

A péssima política brasileira de transportes tem origem no governo Juscelino Kubitschek. No afã de industrializar o País, ele presidente definiu, de maneira imprudente, a forma de transportes por automóvel e caminhão. No mesmo ímpeto em que foram desativadas criminosamente as vias férreas, o transporte urbano passou ao ônibus e automóvel. Quase nada de substancial foi feito, em mais de 50 anos, para construir vias como o metropolitano e trens urbanos. E quando finalmente se iniciou o metropolitano de São Paulo, seu ritmo e investimentos foram insuficientes.

O caos dos transportes castiga os usuários mais pobres dos ônibus, cujas tarifas, estão muito além do serviço prestado. Enquanto a imperícia da administração pública e sua opção preferencial pelos veículos movidos a gasolina forem mantidas, a situação tende a piorar, com novas manifestações.

Há uma diferença a ser indicada. Nas manifestações de massa contra a ditadura, pela Anistia, Diretas Já, impedimento de Collor, a preocupação dos organizadores era a repressão e os provocadores, saídos dos porões ditatoriais. Com os black blocs, nova realidade surgiu. Eles impedem o sucesso das manifestações e se apresentam em todas elas, com precisão matemática.  Os agentes administrativos inidôneos ou incompetentes têm aliados poderosos nos que promovem o quebra-quebra e justificam medidas truculentas da repressão policial.

ROBERTO ROMANO É PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA DA UNICAMP

 

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