DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Aliança é alvo de bando na Vila Madalena

Mulheres têm sido abordadas por motoqueiros, normalmente quando estão com crianças

Marco Antônio Carvalho e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A recorrência de assaltos cometidos contra pedestres e motoristas na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, tem assustado moradores e pessoas que trabalham e usam serviços da região. Criminosos com motos, bicicletas e até a pé têm feito abordagens e tomado, em ações rápidas, segundo relato de vítimas, pertences como celulares, dinheiro e, principalmente, alianças. A Secretaria da Segurança Pública informou que se esforça em conter a criminalidade no local.

No fim da semana passada, o relato de uma mulher roubada na Rua Harmonia ganhou repercussão no Facebook. A ação acabou flagrada por câmeras de segurança de um condomínio em frente ao local da ocorrência. "Havia uma moto estacionada, como quase sempre há, daqueles rapazes que fazem as entregas nos condomínios. O rapaz aparentemente havia feito uma entrega e veio falar comigo, acreditei que iria me pedir uma informação. Falou 'você está com as crianças, então só me passa sua aliança e sai andando'. Ele mostrou impaciência e preocupação com o entorno, colocou a mão dentro da jaqueta (como quem põe a mão na arma)", escreveu a vítima.

Em contato com a reportagem, a vítima, de 34 anos, que prefere não se identificar, disse que o caso afetou sua rotina. "Fico chateada porque foi no bairro que a gente faz muita coisa a pé, vai à padaria, ao banco, e agora não me sinto mais segura para isso", disse.  

Ela disse que quando comprar um novo anel terá receio de usá-lo na rua novamente. No momento do crime, ela voltava com os filhos de 2 e 3 anos da escola. No vídeo, é possível notar que a execução do crime durou menos de 30 segundos. Outras pessoas também informaram ter sido atacadas da mesma forma nas últimas duas semanas, e disseram acreditar que os criminosos têm escolhidos vítimas mulheres, por ser um alvo supostamente mais fácil.

Na mesma rua, a dona de casa Carolina Gálico, de 39 anos, foi vítima de tentativa de roubo por um motoqueiro em julho, próximo à estação de Metrô do bairro. Segundo relata, o homem tinha pele branca e aparência de 45 anos. Por volta das 17 horas, ele se aproximou do carro onde a mulher estava, de vidros abertos, com as duas filhas. "Achei que ele fosse pedir informação. Mas disse 'Passa a aliança senão vou te matar'", afirma. Carolina percebeu a outra faixa livre e pensou em acelerar para fugir, mas o rapaz interrompeu: "Se acelerar, eu mato você".

Por não ter visto uma arma com ele, a dona de casa foi embora e escapou do roubo. "Ele aproveitou a oportunidade, viu que estava com vidros abertos e com crianças. Pensou 'está de graça'. Chegou de mansinho, sem fazer muito alarde, e aproveitou a situação de uma mulher com criança pequena", disse. Carolina vê um padrão nos roubos de aliança: o alvo são mulheres com crianças. Após o seu caso, ela comentou com vizinhas, colegas e amigas, e ficou surpresa ao notar que havia mais vítimas de um 'ladrão de alianças' na mesma região. "Eu tinha outras coisas no carro: bolsa, iPhone, tablet... Ele pediu a aliança. De repente, é alguém especializado em ouro." 

Também na Harmonia, o taxista Jurandir Pereira dos Santos, de 60 anos, agora evita ficar sozinho no veículo enquanto espera por clientes. "Fecho o carro, e vou esperar ali em cima para não ter problemas", disse. Santos atua no mesmo ponto há 18 anos e disse ter notado um aumento de casos de roubos nas ruas próximas nos últimos meses.

É o mesmo sentimento do vigia Gilton Silva, de 63 anos, que trabalha na Praça Rafael Sapienza, a 100 metros da Rua Harmonia. "Há bastante roubo, muitas vezes de bicicleta ou a pé. As empregadas das casas daqui evitam até varrer a calçada para não serem pegas", disse. "A nossa segurança aqui é só Deus mesmo." 

Na tarde desta quarta-feira, 14, a praça não contava com mais de duas pessoas caminhando, falta de movimento que Silva atribui à violência. "Não é porque é meio de semana nem nada. É porque o pessoal não se sente seguro mesmo." Segundo ele, são frequentes também o roubo e furto de veículos, deixados à noite numa rua que não tem muita circulação.

Os casos também alteraram a rotina da médica Letícia Kawano Dourado, de 37 anos. Depois de ter sofrido um assalto na região há dois anos, ela deixou de pegar metrô e passou a usar táxi para os deslocamentos diários. "Sozinha, sou uma presa muito fácil. Ainda hoje, a gente ouve relatos e fica com receio, então não faço o mesmo caminho", disse. Ela ainda lembra a atitude do criminoso durante a abordagem. "Eu não reagi e ele falou que não queria prejudicar ninguém, que era até para eu tirar o chip do meu celular. No final, disse para eu não ficar andando sozinha por aí". 

Roubos sobem. A sensação de insegurança se traduz em números quando são analisadas as estatísticas de segurança do 14º DP (Pinheiros), responsável pela investigação dos crimes da área. Foram registrados até julho 1.213 roubos, 2,2% a mais do que a quantidade do mesmo período do ano passado. Aconteceram também 181 roubos de veículos, um a mais do que em 2015, e 3.411 casos de furtos gerais, 8,9% a mais na mesma comparação. 

Os dados da pasta apontam ainda que casos como os que acontecem na Vila Madalena representam a maioria nesse tipo de crime. Em julho deste ano, dado mais recente disponível, 52,61% dos roubos foram a transeuntes, seguido por 20,36% para casos de veículos. Celulares são levados em 20% das ocorrências, e documentos, em 45%.

Membro do Conselho de Segurança (Conseg) de Pinheiros, o cirurgião-dentista Aristides de Aquino Medeiros, de 79 anos, disse que pedirá reforço do policiamento na região. "Acontece que a área que a companhia tem de cobrir em Pinheiros é muito grande. Mas vamos fazer o pedido, levar ao conhecimento deles os casos que estão acontecendo", disse.

Em resposta aos questionamentos da reportagem, a Polícia Militar informou que três pessoas foram presas em flagrantes e um menor foi apreendido por roubo, na região da Vila Madalena, desde o último fim de semana. "Uma dupla presa no sábado foi reconhecida por outra vítima que havia sido roubada, resultando no esclarecimento de mais uma ocorrência", informou em nota.

A Secretaria da Segurança disse que "o policiamento preventivo é realizado por meio de planejamento estratégico e atua por meio de diversos Programas de Policiamento". A pasta acrescentou que as polícias estão empenhadas em conter a criminalidade da região e trabalham em conjunto. "Nos sete primeiros meses de 2016, as polícias prenderam 386 pessoas em flagrante na região."

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