Alerta oficial só foi dado de madrugada

Órgão da prefeitura do Rio que avisa sobre risco de alagamento previa chuva moderada

Felipe Werneck e Clarissa Thomé, RIO, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

A enxurrada que começou no fim da tarde de segunda-feira foi oficialmente a maior desde 1966, mas o Sistema de Alerta de Chuvas Intensas e de Deslizamentos em Encostas do Rio só atingiu o nível preto, de "alerta máximo", às 2h25 de ontem. O sistema ficou por quase 11 horas, desde as 15h30 de segunda, no nível amarelo, de "atenção", que aponta para a "possibilidade de chuva moderada, ocasionalmente forte".

"Tínhamos uma previsão de chuva, mas não com essa intensidade", disse ontem o prefeito Eduardo Paes. "Nossa preocupação nesse momento é muito menos encontrar culpados, quem não previu essa quantidade enorme de chuva ou o que deixou de ser feito", completou. Para o prefeito, foi a maior chuva já registrada na cidade, e "não há galeria de água pluvial limpa que resista". "Tivemos uma chuva fora do normal, em um período de ressaca, e isso se soma a ineficiências e problemas estruturais já conhecidos", afirmou.

Dados da execução orçamentária nos anos de 2008 e 2009 divulgados pela vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB) indicam que Paes gastou menos que o antecessor Cesar Maia (DEM) em rubricas como "controle e ampliação do sistema de drenagem" (queda de 31%) e na "implementação de sistema de esgoto sanitário" (-58,7%). No entanto, o atual prefeito ampliou gastos em "manutenção e melhoria do sistema de drenagem urbana" (+ 39,9%) e "estabilização geotécnica (+61,6%), na mesma comparação do primeiro ano de Paes com o último de Maia. "Mas não vou ficar em guerrinha de números nem alimentando urubus da desgraça alheia", disse o prefeito.

Áreas de risco. A prefeitura apresentou em janeiro um levantamento que mapeava 12.196 domicílios em áreas de risco na cidade. Indagado se os locais onde morreram pessoas por causa da chuva estavam nesse levantamento, o subsecretário municipal de Defesa Civil, Sérgio Simões, reconheceu que "possivelmente há locais que já eram identificados como áreas de risco, e outros que não". O prefeito disse ao meio-dia que todas as mortes registradas na capital tinham sido causadas por deslizamentos de terra. Ele afirmou que foram feitos "vários reassentamentos" este ano, mas não citou números. "Os demagogos de plantão, toda vez que se fala em reassentamento, só aparecem no momento da seca. Têm áreas da cidade onde não dá para viver."

Segundo Paes, "todas" as encostas da cidade corriam risco de deslizamento. Ele fez um "apelo" para que as pessoas que vivem nessas áreas "saiam de suas casas, independentemente de alguém da prefeitura ou dos Bombeiros ir lá".

Para o professor José Henrique Prodanoff, da UFRJ, os deslizamentos foram agravados pelo fato de "os morros estarem ocupados por construções precárias e o solo estar fragilizado". "O Rio é entremeado por morros e encostas ocupados por favelas, e esse é um fator relevante para o impacto maior do temporal", disse. Segundo ele, agora é preciso redobrar a atenção, porque as galerias estão sobrecarregadas e a capacidade de o solo absorver mais água é mínima. "A próxima chuva vai encontrar a cidade completamente úmida. Qualquer chuva de 100 mm pode causar uma tragédia."

"Quando o prefeito afirma que todas as encostas são vulneráveis, por certo haverá áreas que se tornaram de risco em função da quantidade de chuva", declarou Simões. Para a prefeitura, uma "agravante" foi a chuva ter ocorrido pouco antes da coleta de lixo em vários pontos. De acordo com a meteorologista Josélia Pegorim, do Climatempo, a situação poderá ficar crítica até amanhã.

No Rio, um plano macrodrenagem foi contratado somente no ano passado. "Existe um conjunto de intervenções acontecendo e uma série de intervenções em licitação", rebateu Paes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.