''Além de escolas é preciso ter polícia''

''Além de escolas é preciso ter polícia''

Especialista defende a necessidade de desenvolvimento social, com presença da força pública e da Justiça

Entrevista com

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

05 Abril 2010 | 00h00

ENTREVISTA

Hugo Acero.

Sociólogo e consultor de segurança pública da ONU

QUEM É

Sociólogo, articulador em 2003 do Plano de Seguridade Cidadã, em Medellín, na Colômbia. Foi secretário de Segurança de Bogotá por três gestões seguidas, época em que o índice de assassinatos chegou a cair 70%. Atualmente, ajuda na elaboração do plano de governo do candidato de oposição a presidente da Colômbia, Sérgio Fajardo, que foi prefeito de Medellín entre os anos de 2004 e 2008.

Das vezes que veio ao Brasil, o sociólogo colombiano Hugo Acero, consultor em políticas de segurança pública das Nações Unidas, fez sucesso entre os políticos brasileiros. Medellín era então um modelo a ser seguido. Ao mesmo tempo em que reduzia vertiginosamente os índices de violência, a prefeitura investia em escolas, postos de saúde, bibliotecas e teleféricos nos bairros mais pobres. A situação se inverteu nos últimos dois anos, quando os assassinatos na cidade cresceram 177%. "As circunstâncias me levaram a endurecer o discurso", admite. Hoje, às 18h30, Acero participa de debate no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, com o diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marco Antônio Desgualdo.

O que aconteceu em Medellín para os homicídios voltarem a subir?

Em 2003 e 2004, existiu um esforço grande da administração municipal em investimentos sociais. Paralelamente, houve em todo o país o processo de desmobilização dos grupos paramilitares, a grande maioria vinculada ao narcotráfico. Essa desmobilização, de alguma maneira, contribuiu por uns anos para que esses grupos não seguissem com sua dinâmica violenta. Desafortunadamente, esses diálogos não impediram que essas estruturas de narcotraficantes seguissem operando. Não era segredo para ninguém que essas organizações criminais ligadas ao paramilitares e narcotráfico seguiam delinquindo.

Foi por isso que os assassinatos voltaram a crescer a partir de 2008?

Em 2006, um grupo de policiais denunciou publicamente que os chefes paramilitares, que haviam sido presos, seguiam dando ordem e delinquindo de dentro das cadeias. Em 2008, o Governo Nacional toma a decisão de extraditar os líderes paramilitares aos Estados Unidos. Com essa extradição, as estruturas que eles controlavam ficaram sem cabeça e sem direção. No final de 2008, inicia-se uma guerra entre as distintas facções desses grupos para conseguir o controle hierárquico. Don Berna, por exemplo, comandava o crime em Medellín e sua extradição levou a uma disputa nos escalões inferiores, representados por Valenciano e Sebastian.

Quando autoridades colombianas vinham ao Brasil, a leitura era de que investimentos sociais causaram a queda dos índices. Para acabar com a violência no Complexo do Alemão, por exemplo, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), vai investir quase R$ 700 milhões em obras.

O problema dos assassinatos em Medellín não é novo. Tem 30 anos. Há presença de máfias e organizações criminais, ligadas a drogas, armas, contrabando, prostituição e jogos. Trinta anos são três gerações que não se calam do dia para a noite. Isso depende do esforço do Estado em seu conjunto para conquistar legitimidade nesses territórios. Quando há investimentos em educação, em bibliotecas, esses investimentos são necessários para o desenvolvimento social, mas, não bastam. É preciso que a força pública e a Justiça estejam nesses territórios trabalhando. Investigação criminal, inteligência, prisões que ajudem a atacar essas estruturas são necessárias. E que comecem a controlar de fato os grupos criminais.

Por que a legislação na Colômbia é tão permissiva em relação ao porte ilegal de armas?

Tem sido muito difícil haver sanção penal para aqueles que portam armas ilegais. Não há pena de prisão para aqueles que portam armas ilegais. E isso é gravíssimo. Temos discutido entre prefeitos para fazer proposta ao Congresso, mas até agora realmente não conseguimos avançar.

Por quê?

Assim como em outros países, existem empresas interessadas em que se sigam vendendo armas. Quando estive em Medellín, em fevereiro, iniciava-se um pacto da sociedade civil com os criminosos em guerra para que os homicídios diminuíssem.

O que pensa dos pactos?

Eu não creio nos diálogos e acredito que com delinquentes não há conversa. Em Bogotá, como secretário, eu me opus várias vezes a dialogar com delinquentes. Porque se cedêssemos, os problemas aumentariam. Caso rivais se coloquem de acordo, eles passam a distribuir as drogas na cidade com mais tranquilidade e continuam delinquindo. Desde os diálogos com Pablo Escobar, nos anos 1990, sabemos que os delinquentes saem fortalecidos nesse processo.

PARA ENTENDER

Homicídios em Medellín sobem 177% em 2 anos

Tido em 1991 como o município mais violento do mundo, com taxa de 381 assassinatos por 100 mil habitantes, Medellín tornou-se fabricante de boas notícias a partir de 2003, quando os índices de homicídios baixaram 81% em quatro anos. Os bons resultados provocaram peregrinação de autoridades à cidade, entre elas governadores brasileiros, como Sérgio Cabral (RJ), Aécio Neves (MG) e José Roberto Arruda (DF), que queriam aprender em Medellín os caminhos para a paz. Nesses anos, contudo, a cidade passava por um breve período de trégua entre quadrilhas, que se rompeu no fim de 2008, fazendo os assassinatos saltarem 177% em dois anos. No ano passado, as taxas voltaram ao patamar de 94 homicídios por 100 mil habitantes, que a colocam novamente no topo do ranking mundial.

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