Renata Okumura/Estadão
Renata Okumura/Estadão

'Ajuda da comunidade é importante em dias de frio', diz morador de rua

Barracas são colocadas uma ao lado da outra e embaixo de passarelas e viadutos para amenizar o frio e proteger da chuva

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2017 | 01h11

SÃO PAULO - Tentar se proteger de alguma forma do frio. Este é o desafio de quem mora nas ruas. Nos últimos dias, as baixas temperaturas atingiram diversos municípios brasileiros, principalmente do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. 

Há doze anos, André, que preferiu não divulgar o sobrenome e a idade, enfrenta o rigoroso inverno na cidade de São Paulo. “A gente usa cobertores para montar a barraca e assim entra menos vento. A gente tem travesseiros e colchão. Tem um sofá que ajuda a fazer a barraca”, descreveu. 

Pelo menos, mais cinco pessoas e dois cachorros, Pantera e Xuxa, moram com o André embaixo da passarela do metrô Tatuapé, na zona leste da cidade. Ao lado das barracas improvisadas e presas com algumas caixas de plástico, tem o colchão dos animais e também vasilhas para ração e água. “Elas comem bem. Ganham de moradores. Os cachorros são nossos verdadeiros amigos. A Xuxa está há dez anos comigo”, afirmou.

 

Livros e um quadro servem como uma mesa onde são colocadas as canecas e alguns alimentos. “A gente recebe ajuda da comunidade do bairro, cobertores e sopa também. É difícil aguentar os dias frios, é muito difícil”, reforçou o morador de rua. André foi criado por uma tia, mas o alcoolismo o levou a viver nas ruas. "Eu ainda falo com ela, mas não me aceita assim”, disse. Questionado se procurou algum abrigo, o morador apenas disse: “Não sei para onde ir. Eu queria ter um emprego e fazer tratamento. Aceito qualquer ajuda".

Nas noites geladas, André reforça que as barracas ficam uma ao lado da outra e embaixo de passarelas e viadutos para amenizar o frio e proteger também da chuva. “A gente torce para não chover porque esfria mais. Ninguém ficou doente, mas dá medo”, desabafou.

Na terça-feira, 18, um homem de 45 anos, não identificado, foi encontrado morto em Pinheiros, na zona oeste da cidade. A Polícia Militar (PM) recebeu uma ligação sobre a ocorrência. O corpo da vítima, que não apresentava sinais de violência, foi encontrado na calçada da Rua Teodoro Sampaio com a Avenida Doutor Arnaldo. Esta é a segunda suspeita de morte de morador de rua em 2017, por causa do frio. Em 10 de junho, um homem de 50 anos foi encontrado sem vida no Belém, na zona leste da capital. No ano passado, de acordo com a Pastoral do Povo da Rua, pelo menos cinco pessoas morreram de frio na cidade de São Paulo.

Ainda na zona leste, moradores de rua estão instalados embaixo do viaduto Milton Leão, logo na entrada do metrô Artur Alvim. Com cobertores, ficam deitados juntos em cima da calçada.

Barracas também foram montadas na Rua Augusta com a Avenida Paulista, na região da Consolação, e também na Rua Frei Caneca. “Tem muitos moradores de rua na região. Alguns até pedem alimento. Eu costumo dar, mas é muito difícil viver assim, ainda mais em dias de muito frio”, relatou a secretária Marilene dos Santos.

Na Rua Dr. Penaforte Mendes, na Bela Vista, na zona oeste, há o Restaurante Comunitário para Adultos em Situação de Rua. Além de fazer a refeição no local, moradores de rua acabam se instalando nas proximidades. “Em dias de frio, o restaurante fica mais cheio”, disse uma funcionária que não quis se identificar. Na Praça da República, moradores recorrem aos cobertores e também aos papelões.

Segundo a Climatempo, a temperatura deverá ficar entre 9 e 21ºC na quinta-feira, 20, e entre 10 e 23ºC na sexta-feira, 21.

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social informa que abriu 1.431 vagas de acolhimento exclusivas para a Operação Baixas Temperaturas, em vigor entre maio e setembro. Além delas, há ainda dez mil vagas fixas na rede socioassistencial, 400 vagas nas redes de Atendimento Diário Emergencial (Atendes I, II e III), 238 no Centro Temporário de Acolhimento (CTA) Aricanduva e 164 no CTA Brás.

“Estão sendo acolhidas, em média, cerca de dez mil pessoas por dia nos 85 centros da capital. Não foi registrado até o momento o esgotamento das vagas na rede. Nos centros de acolhida os moradores podem tomar banho, fazer refeições, lavar suas próprias roupas, pernoitar e ter atendimento socioassistencial”, esclareceu a nota.

Na quarta-feira, 19, foi inaugurada a primeira unidade de acolhimento do Programa Emergencial de Inverno (PEI) na capital paulista. “No local, além do acolhimento, os conviventes também tem acesso a banheiros equipados com chuveiros com água quente e vasos sanitários e também a local para refeições (jantar e café da manhã), seguindo o modelo das unidades de Atende implantadas recentemente na região da Luz”, reforçou o posicionamento.

No fim da tarde de quarta-feira, o prefeito João Doria informou, pelo Twitter, a distribuição de 2 mil cobertores e meias para pessoas em situação de rua em São Paulo.

Qualquer cidadão pode ainda acionar a prefeitura pelo número 156 e indicar onde é necessária uma abordagem social.

Mais conteúdo sobre:
São Paulo [SP]

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.