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Marcio Ribeiro/Brazil Photopress

Acidente reacende debate sobre fim do Campo de Marte

Em outubro, entrou em vigor portaria da Aeronáutica que reduz em até 100 metros a altura de novas edificações ao redor de aeroportos

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Fabio Leite, Luiz Fernando Toledo e Rafael Italiani,
O Estado de S.Paulo

21 Março 2016 | 07h46

SÃO PAULO - O acidente deve ainda reacender o debate sobre a desativação do Campo de Marte na região da Casa Verde, constituída basicamente de imóveis residenciais. Em outubro do ano passado, entrou em vigor uma portaria da Aeronáutica que reduz em até 100 metros a altura de novas edificações ao redor de aeroportos. O mais afetado é o entorno do Campo de Marte, na zona norte.

“Quando há um acidente, essa questão é retomada. Eu particularmente sou a favor de que (o aeroporto) continue funcionando, mas a sociedade vai precisar discutir. Quem é contra fala, por exemplo, das questões de segurança na região”, afirma o representante da aviação geral do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Raul Marinho Gregorin. Ele ressalta que, caso a opção seja pela desativação, a cidade precisa encontrar alternativas. “Não se pode simplesmente desativar o Campo”, disse.

A desativação do Campo de Marte é defendida pela gestão Fernando Haddad (PT) para promover um adensamento da região através do projeto Arco do Futuro, mas encontra forte resistência da Secretaria Nacional da Aviação Civil.

Bairro em pânico. Os moradores do entorno da Rua Waldemar Martins, onde o monomotor de Roger Agnelli, ex-presidente da Vale caiu após decolar do Campo de Marte, na zona norte de São Paulo, temem pela vida dos filhos. O pai de um aluno da Escola Projeto Vida, que fica a 500 metros da pista do aeroporto e na mesma trajetória do acidente de sábado, 19, acredita que a proximidade entre os dois locais é um “risco” à vida dos filhos.

“É uma escola infantil de crianças de até seis anos. Imagina se o acidente tivesse acontecido em um dia útil e tivesse aula”, afirmou o homem que também é morador da Casa Verde e piloto de avião, e pediu anonimato. No início da tarde deste domingo, 20, moradores da Rua Frei Machado, endereço do acidente aéreo, se mostravam impressionados pelo impacto da aeronave, o rastro de destruição e inseguros em relação ao futuro.

O aposentado Alberto Matheus, de 69 anos, se assustou ao ver o buraco deixado pela aeronave no sobrado de três andares e os seis automóveis que ficaram destruídos pelo incêndio. 

“Eu moro na rua de cima e se esse avião tivesse subido um pouco mais, poderia ter caído na minha casa”, contou. Ele mora há 20 anos na região e disse que procurou o bairro pela “tranquilidade” e a área verde da região. 

Outra moradora antiga do entorno do Campo de Marte, a dona de casa Zuleide Amaral, de 59 anos, teme por novos acidentes. “Se aconteceu uma vez é porque podem acontecer outras. Quando me mudei para cá o movimento de aviões era bem menor do que hoje”, afirmou.

Ela disse se “lembrar bem” do acidente com um jatinho em 2007 que teve oito mortos. “Foi um pânico generalizado no bairro. Todo mundo se sentiu na rota de uma nova tragédia.” 

Ainda na tarde deste domingo, curiosos aproveitaram a saída da Polícia Militar do local e o fim do isolamento da área para ver de mais perto o tamanho da tragédia. Tudo assustava as pessoas: do incêndio na casa ao rastro deixado pela aeronave nas copas das árvores da rua.

Bomba. Vizinhos da tragédia que estavam aproveitando o sábado de sol compararam o barulho do acidente com o de uma bomba. “O estrondo foi assustador. As casas tremeram, várias janelas quebraram e muita gente se jogou no chão”, contou o administrador de empresas Caio Lima, de 32 anos. 

Ao ver a fumaça, ele correu para o local do acidente e conseguiu fazer fotos e vídeos enquanto o avião e o sobrado ainda pegavam fogo. 

A mesma impressão teve entregador Wallace Silva, de 23 anos. Ele trafegava de motocicleta pela Avenida Braz Leme, a pouco mais de 900 metros da Rua Frei Machado quando viu e ouviu a explosão. “Eu quase cai da moto pensando que tinha explodido uma bomba. Mas quando eu vi a fumaça e percebi que estava ao lado do Campo de Marte já tive certeza de que um avião tinha caído. Pela força do impacto achei que fosse um jato”, disse. 

Ele se dirigiu ao sobrado, mas deu meia volta quando viu que o combustível do avião escorria em chamas pela rua. 

Mudança. Neste domingo, a família Carrara aproveitou a liberação do sobrado para retirar os objetos pessoais e fazer uma espécie de “mudança” para a casa de parentes. Ainda assustados, as pessoas que viviam na casa interditada pela Defesa Civil por risco de queda preferiram não dar entrevistas.

No momento do acidente, Armando Carrara, de 65 anos, proprietário do sobrado, brincava de jogar dados com o neto em um dos terraços. Ao ouvir um grito do genro alertando sobre a proximidade do avião, ele pegou a criança e correu para os fundos da casa.

Enterro de vítimas. Os corpos do empresário Roger Agnelli, de sua mulher, dos dois filhos e do genro foram enterrados na tarde deste domingo no cemitério Gethsêmani, na Vila Sônia, zona sul da capital. Autoridades, entre as quais os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), e executivos de grandes empresas nacionais compareceram à cerimônia reservada, não divulgada à imprensa. O corpo de Carolina Marques, namorada do filho de Agnelli, foi sepultado em Campinas, no interior paulista. 

Até o final da tarde deste domingo, o corpo do piloto Paulo Roberto Baú ainda não tinha sido retirado do Instituto Médico-Legal (IML) central. Familiares de Roraima, onde o comandante da aeronave trabalhou com fretamento, eram esperados para fazer a liberação dos restos mortais. O corpo dele será enterrado em São Manuel, no interior paulista. 

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