Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Acidente em Congonhas: O drama da mãe que nunca identificou o corpo da filha

Michelle Rodrigues Leite era comissária de bordo do JJ 3054 e foi uma das quatro pessoas cujos corpos nunca foram identificados

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Correções: 10/07/2017 | 12h52

Há dez anos uma pergunta recorrente, na voz da filha Michelle, costuma despertar do sono a professora Márcia Soares, 54 anos: “Mãe, onde estou?” Michelle Rodrigues Leite era comissária de bordo do JJ 3054 e foi uma das quatro pessoas - dentre as 199 vítimas do desastre em Congonhas - cujos corpos nunca foram identificados. Cada família vive a perda de um jeito. A dor da Márcia, uma década depois, ela descreve assim: “É como se eu ainda estivesse em busca. Sonho com ela, ela me pergunta onde está, eu pergunto de volta... E nenhuma das duas responde. É um ciclo que ainda não fechei, infelizmente.”

Márcia passa por tratamento psiquiátrico e só dorme depois de tomar remédios (cinco tipos, que ela guarda em um estojo redondo de plástico). Conta de um jeito sofrido o que viveu a partir da morte da filha, os 53 dias na porta do Instituto Médico Legal, na zona oeste da cidade, as muitas perguntas sem respostas que culminaram no lamento desesperado: “Mas, doutor, como é que uma pessoa evapora?”

Uma tragédia dentro da tragédia que ela viveu, ter de fuçar dentro do galpão do IML onde ficaram restos do avião, buscando entre pedaços queimados de fuselagem e o cheiro de querosene antes tão familiar quanto um filho. O trabalho dos legistas se acabou, havia alguma chance de a Márcia, professora de Português, encontrar alguma coisa ali? Podia ela não procurar? “Um médico foi honesto e disse que o que encontravam eram partes muito pequenas das pessoas. Eu queria então essa parte pequena.”

Junto com outros familiares de vítimas, ela foi a Brasília, pois queria ouvir o áudio da caixa preta. O jornal tinha publicado que um grito de mulher era o último som na cabine - seria a voz da filha? A informação indicaria se Michelle estava perto dos pilotos, poderia ser uma pista... Mas a Márcia escutou o grito - “quem ouviu aquele áudio gritou junto” - e soube que não era ela.

Depois de conversar com familiares de Levi Ponce de Leão, de 1 ano e 8 meses, vítima também não identificada, decidiu fazer um enterro simbólico. Ela reuniu em uma caixa os pertences da filha encontrados entre os escombros - um chaveiro de ursinho escrito “Eu te amo”,  sapatilha e casaco de aeromoça, um estojo de maquiagem - e, depois de uma burocracia (“tive de assinar que no caixão havia apenas pertences, e não o corpo”), fez o enterro da filha no Cemitério do Carmo, na zona leste. “Foi um dia bonito, umas 300 pessoas foram, muitos amigos de infância dela, muita gente do trabalho. Fizemos uma oração e senti que ela foi honrada, muito honrada nessa despedida.”

Tanto a procura por informações sobre o que houve com a filha como o ritual do enterro são passos importantes na vivência do luto e na construção de significados para ele, explica a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP, que atendeu aos familiares de vítimas nos meses e anos seguintes ao acidente. “Ao tratar do luto, falamos muito na construção de significados. Quando não há um corpo para enterrar, o que substitui são os rituais. Que sejam plenos de possibilidades de aquela pessoa ser lembrada, marcada, nomeada. E junto de pessoas queridas, que participem da cerimônia fúnebre com todo o respeito que ela tem de ter. Isso marca que a pessoa não evanesceu, ninguém simplesmente evanesce.”

Tampouco há prazo para terminar o luto. Na busca por entender os últimos momentos da filha, Márcia quis saber a dinâmica do fogo, da explosão, a temperatura que alcançou. Ouviu que chegou a 1 mil ºC em alguns pontos e parte da fuselagem derreteu e, junto com ela, tudo o que havia embaixo. “Aí eu quis saber onde estavam esses destroços derretidos e disseram que ninguém podia ver porque o processo continuava correndo. Tudo bem, eu espero.”

 

Correções
10/07/2017 | 12h52

O texto acima foi atualizado às 12h53 desta segunda-feira, 10, para corrigir a informação sobre o combustível do avião.  A aeronave usava querosena, não óleo diesel.

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