Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ação reduz Cracolândia, que resiste fragmentada

Obras, desapropriações e demolições avançam, só que usuários e moradores vivem clima de incerteza

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Um ano após ser alvo de uma megaoperação policial, a Cracolândia resiste, com o fluxo espalhado pelo centro de São Paulo. No “quadrilátero da droga”, porém, o cenário mudou: usuários dividem território com espigões residenciais de 17 andares, recém-construídos. Com obras, desapropriações e demolições em andamento, frequentadores e moradores vivem clima de incerteza – e o acirramento da tensão tem provocado conflitos com guardas-civis e policiais, e até invasões nos novos prédios.

Comparado ao cenário de 2017, o fluxo “pulou” uma quadra e a maioria dos dependentes químicos se concentra no cruzamento da Rua Helvétia com a Alameda Barão de Piracicaba. Lá, usuários de droga aproveitam os tapumes que os separam das obras do Complexo Júlio Prestes, no antigo terreno dos bombeiros, para pendurar cordões, como se fosse um varal, e tentam içar tendas. São entre 400 e 800, a depender do horário, segundo cálculos da Prefeitura. Em 2017, eram 1,7 mil.

“A Cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais”, declarou o então prefeito João Doria (PSDB), na época da operação. “A estrutura física da Cracolândia, como existiu por mais de 20 anos, nos quarteirões entre a Helvétia e a Alameda Dino Bueno, de fato acabou no dia 21 de maio com a ação do Projeto Redenção”, disse nesta quinta-feira, 17, em nota ao Estado.

+ Para lembrar: É o fim da Cracolândia? 

É possível encontrar usuários fumando livremente na Rua Cleveland, na Dino Bueno e nas imediações do Largo Coração de Jesus. “Como querem que o pessoal venha morar nos prédios, se o fluxo está na porta?”, indaga Vivian Müller, de 37 anos, que há cinco vive em uma pensão da Cracolândia, mas está de mudança para Guarulhos, na Grande São Paulo, por causa das desapropriações. A Parceria Público-Privada (PPP) da Habitação deu prioridade a quem trabalha no centro. “Todas as famílias estão indignadas porque vão ter de sair daqui.”

Deitados em colchões e barracas, usuários se aglomeram na frente da Estação Pinacoteca. Concentrações menores e “flutuantes” tendem a ficar próximas de equipamentos assistenciais, como da Avenida Duque de Caxias e o da Rua Mauá. Também entrou no radar da polícia uma “migração” para a Favela do Moinho, no centro, de usuários que buscam droga e se acomodam perto da linha férrea. 

“A primeira dificuldade é abordagem, a criação de vinculo. No fluxo, é difícil. Quando está sozinho, é mais fácil”, diz o deputado federal Floriano Pesaro (PSDB), secretário estadual de Desenvolvimento Social em maio de 2017. Para a polícia, a fragmentação também ajuda. Quanto mais gente, maior risco de conflito em operações. 

Incerteza. Os governos correm com obras e processos de desapropriação. Na Avenida Rio Branco, uma placa do Estado informa que, em três anos, será entregue o Centro de Referência da Mulher, do Hospital Pérola Byington, onde retroescavadeiras trabalham. Segundo a Prefeitura, equipamentos prometidos – como uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e um Centro Educacional Unificado (CEU) – só serão construídos após as 3.683 moradias previstas na PPP da Habitação.

Três dos sete hotéis, que segundo a polícia serviam para armazenar e distribuir drogas, estão lacrados. No fluxo, usuários discutem o futuro da Cracolândia. “Vai ser guerra, irmão! Quando entregarem esses prédios, é que vão querer tirar a gente. Só que a Cracolândia é território nosso, tá ligado? A gente cai para cima”, diz um rapaz, de bicicleta e cachimbo na mão. 

“Tá maluco, vagabundo, é claro que vai acabar! Com o hospital aqui, cheio de mulher e criança, vai ficar fumando o quê?”, rebate um amigo. “O crime é inteligente, vai aparecer uma biqueira aqui e outra ali. É pegar e sair, tá ligado? Pega e vai fumar no Brás, no Campo Limpo”, diz.

Nos últimos meses, a região tem registrado conflitos entre usuários e agentes de segurança: alguns evoluíram para arrastões no comércio. Eles ocorrem principalmente durante a limpeza (três vezes por dia) – ou no “rapa”, como dizem frequentadores. Mesmo os prédios do Complexo Julio Prestes chegaram a ser invadidos, depredados e saqueados, com prejuízo não informado. Parte do Complexo, a Praça Julio Prestes, perto do fluxo, foi inaugurada mas, por enquanto, só é frequentada por seguranças. Em nota, o Estado diz que o objetivo é que seja um “ponto de convivência da população”.

Para a Prefeitura, a limpeza serve para tentar manter o domínio sobre o território, o que inclui, ainda, proibir barracas e usar drones para filmar a Cracolândia. “Não é mais controle deles”, diz o secretário municipal da Segurança Urbana, José Roberto Oliveira. Na semana passada, o prefeito Bruno Covas (PSDB) entregou a revitalização da Praça Princesa Isabel, como parte do projeto de reurbanização. “Não podemos ainda comemorar o fim de uma área degradada como a Cracolândia, mas acho que cada vez mais a gente vem tendo pequenas conquistas.”

Droga chega em saco de pão e carrinho de bebê

Um senhor de mais de 70 anos caminha pela Cracolândia segurando um saco com cerca de 30 pães. Escondidas no miolo, os policiais encontram várias pedras de crack. Com o enrijecimento do cerco policial que resultou na prisão de mais de 1,2 mil pessoas em um ano, traficantes têm recorrido à criatividade para abastecer o fluxo. Para driblar abordagens, também aliciam usuários a atuarem como “mula”, ou seja, transportando droga.

Segundo a Polícia Civil, a maioria do crack que chega à região é fabricada no exterior, principalmente em laboratórios do Paraguai onde há forte presença do Primeiro Comando da Capital (PCC), e tem no Mato Grosso uma das portas de entrada. No Brasil, o transporte da droga é feito por vias terrestres, com veículos que são trocados a cada nova operação para dificultar o monitoramento da polícia.

Na cidade de São Paulo, o crack é armazenado em entrepostos da zona leste e na Favela do Moinho, que fica no centro, a pouco mais de um quilômetro de distância da Cracolândia. De lá, a droga tem ido em quantidades menores para o fluxo – estratégia adotada pelos traficantes desde que a presença policial aumentou. Em um ano, 1.207 pessoas foram presas em flagrante na Cracolândia, além de 243 adolescentes apreendidos, segundo balanço da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Os agentes encontraram 652,3 quilos de drogas – 74,2 deles de crack. Entre os flagrantes realizados pela Polícia Militar e pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), já acharam pedras escondidas em embalagem de remédio, alimentos e até em carrinho de bebê.

Antes, os traficantes levavam “tijolos” de crack, cada um pesando de 2 a 3 quilos, e estocavam em hotéis que funcionavam dentro do quadrilátero, segundo afirma a Polícia Civil. De lá, distribuíam entre barracas ao ar livre.

Facção. Investigações em curso indicam que, ao contrário do que acontecia recentemente, o PCC tem atuado a distância na Cracolândia. Segundo a Polícia Civil, o comércio direto da droga foi “terceirizado” e passou para mãos de “traficantes independentes”. À facção, cabe o papel de autorizar quem pode fazer negócio no território. Para isso, cobra uma taxa dos criminosos ou os obriga a revender o crack fornecido pela facção.

Entre 2015 e 2017, a atuação do PCC na Cracolândia era direta. Era a facção quem controlava a “feira da droga”, entre a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvétia, área em que até agentes de saúde e assistentes sociais eram proibidos de entrar. O modelo parecia com o de franquias: a facção cobrava de R$ 70 mil a R$ 80 mil por ponto.

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Era do PCC. Hoje cuida da limpeza de abrigo

Ex-traficante diz que deixou as drogas e saiu do crime

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - No ano passado, Fábio Henrique, de 45 anos, acordou com um jato de água e respingos de lama pelo corpo na Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, onde usuários haviam montado acampamento após a operação policial na Cracolândia. Ainda sob efeito do crack, pensou: “Meu Deus, se Você existe, me tira dessa situação”. Levantou em seguida, avisou aos colegas que iria ao banheiro e procurou um Cratod, unidade de saúde voltada para dependentes. Ficou 32 dias internado.

+ Ação reduz Cracolândia, que resiste fragmentada

Com duas passagens pela polícia e mais de 6 anos de pisão, na soma, Henrique conta que trabalhava para o Primeiro Comando da Capital (PCC) na Cracolândia, onde era chamado de “Carioca”. Entre as suas funções, ia buscar pasta-base, matéria-prima para produção do crack, em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. “Voltava de ônibus com a droga toda amarrada no corpo com Durex”, conta. Também cozinhava as pedras em imóveis dentro do fluxo, além de fiscalizar e reprimir a presença de pessoas de outras facções no território.

“Eu tinha status, andava com duas armas na cintura”, diz Henrique. Segundo relata, havia um código quando passava uma viatura policial para que os dependentes químicos formassem um “escudo humano”. “Olha a loira”, diziam. “Na mesma hora, os usuários me cercavam e me protegiam até de tiro. E eu passava tudo porque, se a polícia batesse, já estava limpo.”

Henrique diz não consumir mais crack desde dezembro. Também saiu do crime, segundo conta. Hoje, é funcionário de em um dos três Atendes, equipamento assistencial da Prefeitura voltado para política de redução de danos, instalados na Cracolândia.

Das 13 às 22 horas, ele veste o uniforme e integra a equipe de limpeza de quartos, banheiros e pátio do Atende, onde usuários podem comer, tomar banho e dormir. Ajuda, ainda, a distribuir as marmitas. “A gente trata todo mundo como a gente queria que fosse tratado”, afirma o ex-traficante, que foi beneficiado pelo serviço antes e passou por seleção para ser contratado.

Os espaços recebem pessoas em situação de rua, que são encaminhadas por equipes de Assistência Social ou de Saúde. Segundo funcionários, muitos comem, se limpam, descansam e voltam para o fluxo. Há também atividades e oficinas, como reforço escolar, grupo de música e roda de capoeira. Uma vez por semana, é feita assembleia com usuários. 

Há outros dois equipamentos semelhantes na Vila Leopoldina, zona oeste, e na Avenida Roberto Marinho, na zona sul, regiões que registram concentração de usuários de drogas – as chamadas “minicracolândias”.

Balanço. Segundo a Prefeitura, os Atendes fizeram mais de 860 mil atendimentos no último ano – o cálculo considera que, se o usuário cortou o cabelo e almoçou, foram dois atendimentos. Em média, são 1,2 mil pessoas por dia. Entre pernoite e temporárias, são 1.292 vagas nos cinco equipamentos. Normalmente, os dormitórios, em contêineres, são compostos por quatro beliches. Funcionários relatam que a procura aumenta em épocas de frio, mas diminui no calor por causa do abafamento nos quartos.

Gerente de um Atende, Mabel Garcia diz que o serviço se preocupa em resgatar a autoestima e a devolver, aos poucos, a autonomia dos usuários. Na unidade, a porta fica fechada e há vigias. “Ontem entrou um cara dizendo que era do PCC. Ele tinha guia mas, na verdade, veio cobrar uma dívida de R$ 3 mil de um dos conviventes”, justifica. “O mais difícil é a questão da recaída. É muito triste.” Para Mabel, um dos desafios é restabelecer vínculos sociais entre os usuários de droga. De julho a janeiro, a unidade que coordena conseguiu contactar 364 famílias de dependentes – só 31 voltaram a morar com elas. “Muitas vezes há um histórico de violência.”

No seu caso, Henrique não vê o filho, hoje com 14 anos, desde 2010, quando foi preso pela última vez. Acha que o menino foi adotado. “Se eu conseguir encontrá-lo vai ser uma alegria muito grande”, afirma. Há uma semana, também começou a namorar uma moça que procurou o equipamento após ser mantida em cárcere privado pelo ex-marido. Está feliz, conta. “Eu fui resgatado.”

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