FÁBIO LEMOS LOPES|ESTADÃO
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Abaixo-assinado contra motorista estava na mochila das vítimas

O documento não tinha assinaturas e também não identifica o nome do condutor que motivou as reclamações dos estudantes

Fábio Lemos Lopes, O Estado de S. Paulo

10 Junho 2016 | 13h47

SÃO SEBASTIÃO - Um abaixo-assinado que pedia providências contra um motorista da empresa de fretados União Litoral foi encontrada entre os pertences dos estudantes que sofreram o acidente na Rodovia Mogi-Bertioga, que matou 18 pessoas na noite de quarta-feira, 8. O documento não tem assinaturas e também não identifica o nome do condutor que motivou a reclamação.

A Polícia Civil afirmou que ainda é prematuro fazer suposições sobre o fato. O documento, endereçado à secretária de Educação de São Sebastião, Maria Zeneide Nunes da Silva Moraes, relata supostas "manobras ilegais" realizadas por um condutor "em tempo chuvoso e com neblina".

"Houve algumas atitudes do respectivo funcionário que coloca em risco a integridade física dos estudantes que utilizam o transporte", relata trecho do texto do abaixo-assinado.

Na quinta-feira, 9, pais de vítimas afirmavam que os filhos costumavam reclamar do condutor. A policia, porém, afirmou que ainda é prematuro relacionar as críticas ao motorista, que também morreu no acidente.

Nesta sexta-feira, 10, a estudante Aline de Jesus, de 20 anos, que estava no ônibus e teve apenas alguns ferimentos foi à delegacia e confirmou que o abaixo-assinado era para reclamar do motorista Antônio Carlos da Silva, de 38 anos, que dirigia o veículo no momento do acidente. Segundo ela, os estudantes reclamavam que ele dirigia em alta velocidade e era imprudente.

Aline teve alta médica no início da tarde desta sexta-feira e foi à delegacia para buscar seus pertences. Bastante abalada, ela disse que estava dormindo e não soube dizer se houve alguma discussão entre os passageiros e o motorista antes do acidente. "Eu estava dormindo e acordei com a gritaria. Uma amiga gritou para que eu colocasse o cinto e eu consegui colocá-lo. Foi o que me salvou", disse. 

Ela relatou que o motorista havia retomado há uma semana para a linha. "Ele corria sempre, queria sair cedo, chegar cedo". Por conta disso, os estudantes decidiram organizar o abaixo-assinado para pedir mudanças.

Aline não presenciou uma suposta discussão entre estudante e o condutor. "Cheguei no ônibus só as 22h, não sei se aconteceu algo antes". Ela relatou que estava dormindo quando escutou os amigos gritando. "Eu coloquei o cinto e pedi para a minha amiga Carol (que faleceu) mudar de lugar, porque o dela não estava fechando. O ônibus tombou e depois não vi mais nada".

Aline disse que foi socorrida inicialmente por estudantes que estavam em outro ônibus "o pessoal disse que eu sai andando, mas não lembro". Assim como Aline, outro estudante que foi até a delegacia de Bertioga para tentar recuperar o pertence dos amigos confirmou que o motorista era uma pessoa nervosa e que os passageiros tinham receito de andar no veículo com ele ao volante.

Mais uma estudante que estava no ônibus que tombou na Rodovia Mogi-Bertioga no fim da noite da última quarta-feira confirmou que alguns passageiros do fretado estavam organizando um abaixo-assinado para pedir a saída do motorista. Luziane Batista, de 19 anos, disse, porém, que nem todos compartilhavam a antipatia com o condutor. "Era uma minoria que estava se mobilizando."

Aluna do primeira ano do curso de ciências contábeis da UMC, a moradora de Juquehy recebeu alta do Hospital Santo Amaro, em Guarujá, nesta sexta-feira. Assim como Aline Jesus dos Santos, ela esteve na delegacia sede de Bertioga para recuperar seus pertences.

Luziane disse que alguns alunos reclamavam sobre o horário de retorno do motorista. "Mas não da forma como ele conduzia". Segundo ela, o motorista nunca abandonou alunos na universidade, mesmo os atrasados. Na última terça-feira, porém, ele saiu com o veículos, retomando minutos depois para buscar o restante do grupo. "Foi só um susto".

Ela afirma que estava acordada no momento do acidente. "Não acredito que ele estava em alta velocidade". Luziane diz que escutou uma gritaria e colocou o cinto.

Solicitação. Em nota, a Prefeitura de São Sebastião informou que nenhum documento foi protocolado na Secretaria de Educação pelos estudantes relatando problemas ou solicitando a substituição do motorista do fretado. Por não saber da reclamação, a comissão dos transportes do município não abriu sindicância para apurar a veracidade dos fatos.

Investigação. O delegado titular de Bertioga, Maurício Barbosa Júnior, afirmou que quer começar a agendar a coleta dos depoimentos dos sobreviventes a partir de segunda-feira, 13. "A relação das vítimas só chegou hoje [sexta-feira, 10]. Preciso fazer o contato com os sobreviventes para marcar um dia para ouvi-los".

Barbosa Júnior disse que irá falar com os feridos em São Sebastião. "Não vou pegar depoimentos nos hospitais".

Perícia realizada pelo Instituto de Criminalística (IC) avaliará as condições do veículo, como freio, pneus e direção, além do local do crime. "Não existe um prazo definido, mas normalmente em 30 dias está concluído", disse o delegado.

Ainda de acordo com Barbosa Júnior, as informações do tacógrafo vão auxiliar a polícia a montar o quebra-cabeças sobre o acidente, já que o equipamento pode dar informações sobre o comportamento do veículo desde quando ele deixou a universidade.

O depoimento dos sobreviventes também auxiliará a identificar se houve discussão ou alertas do motorista para os passageiros. A polícia afirmou que não descarta que tenha ocorrido uma suposta confusão entre o condutor e os passageiros.

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