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A uma semana da Copa, metroviários e CET entram em greve

Adriana Ferraz, Bruno Ribeiro e Caio do Valle - O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 22h 00

Tribunal Regional do Trabalho (TRT) concedeu liminar à empresa a fim de garantir 100% de operação da rede nos horários de pico e 70% no restante do dia, mas sindicato promete paralisação total; rodízio de veículos foi suspenso

SÃO PAULO - A uma semana da abertura da Copa do Mundo, na Arena Corinthians, em São Paulo, os metroviários decidiram entrar em greve por tempo indeterminado, a partir da madrugada desta quinta-feira, 5. Em assembleia realizada no noite desta quarta no Sindicato dos Metroviários, 2 mil trabalhadores deliberaram pela paralisação. Agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) também vão parar. O rodízio de veículos foi suspenso. 

Segundo o Metrô, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) concedeu uma liminar à empresa a fim de garantir 100% de operação da rede nos horários de pico e 70% no restante do dia. A multa por descumprimento da decisão judicial é de R$ 100 mil por dia. Em uma rede social, a estatal criticou a decisão dos metroviários. “O Metrô repudia a greve decretada pelo Sindicato dos Metroviários, que só prejudica os usuários e a população de São Paulo”, disse a empresa aos usuários.

A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) marcou audiência de conciliação para as 10 horas com sindicalistas e o secretário estadual dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes. Outra reunião será realizada às 15h no TRT. 

Caio do Valle/Estadão
Categoria decidiu paralisação por unanimidade em assembleia realizada na noite desta quarta.

O presidente do Sindicato dos Metroviários, Altino Prazeres Júnior, garantiu que, mesmo com a liminar, os metroviários não vão trabalhar. “Desafio o governo do Estado a fazer isso (exigir 100% da operação), uma vez que nem na operação normal isso acontece.” De acordo com Prazeres Júnior, a assembleia foi realizada antes de o sindicato ser formalmente notificado pelo TRT e, por isso, está mantida nas Linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 5-lilás.

“O transporte não é mercadoria e tem de ser pago pelos grandes empresários, que tratam o povo como escravo. Um rapaz da zona sul não pode namorar com uma menina da zona leste do jeito que está o transporte. O governo do PSDB está envolvido com muita corrupção. Se tem dinheiro para Itaquerão e Copa, por que não tem para o transporte público?”, disse Prazeres Júnior. Ele prometeu “uma greve histórica”.

Vários líderes de movimentos sociais discursaram em apoio aos metroviários, entre eles do PSTU e do Movimento Passe Livre (MPL), que em junho do ano passado deflagrou onda de manifestações contra o aumento das tarifas. Estudantes grevistas da USP também participaram da assembleia.

Proposta. Os funcionários do Metrô rejeitaram e vaiaram a proposta de 8,7% oferecida pela empresa, assim como o vale-refeição de R$ 290 (hoje é de R$ 247). O TRT havia sugerido aumento de 9,5% e R$ 320 de vale-refeição. Os metroviários pedem reajuste de 16,5% e dizem que não voltam a trabalhar se não houver uma oferta de ao menos 10%. O Metrô tem cerca de 9,7 mil funcionários.

Diante dos impasses na negociação, mediada pela desembargadora Ivani Contini Bramante, Prazeres Júnior desafiou novamente o governador Geraldo Alckmin (PSDB) a permitir a catraca livre durante a greve, para não prejudicar a população. Porém, na semana passada a hipótese já havia sido descartada pela empresa. 

Antes da deflagração da greve, o presidente do Metrô, Luiz Antonio Carvalho Pacheco, também descartou a possibilidade de catraca livre. “Não vemos nenhum sentido nisso, porque é um prejuízo para toda a população, até mesmo para os metroviários. O Metrô tem uma única fonte de receita: a venda dos bilhetes. A perda de receita é um contrassenso se estamos negociando melhores condições de salário”, afirmou.

Ele disse também que vê “com muita preocupação” uma greve da categoria às vésperas da Copa. Ele criticou o fato de alguns operadores de trens terem usado a comunicação sonora das composições para alertar a população sobre o risco de greve. “Não é uma atitude correta e, na nossa opinião, fere as condições de paz.

Tivemos também de chamar a polícia, porque a manifestação dos metroviários na Sé foi tumultuada.” Pacheco afirmou que um plano de contingenciamento pode ser adotado em caso de greve, com alguns supervisores tentando operar parte das linhas.

Prazeres Júnior orientou os metroviários indecisos sobre a paralisação a irem doar sangue. “Não tem chance de ter fura-greve.”

Marronzinhos. Agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) também definiram greve por tempo indeterminado nesta quarta. Em assembleia realizada na Câmara Municipal, cerca de 700 marronzinhos - mais da metade do efetivo - recusaram a proposta de 8% de reajuste feita pela gestão Fernando Haddad (PT) e optaram pela paralisação.

O sindicato que representa a categoria reivindica aumento real de 12,9% e reajuste de 20% nos vales alimentação e refeição ofertados pela CET, entre outros benefícios. A empresa já estava avisada sobre a possibilidade de greve desde sexta-feira. Sem agentes nas ruas, os serviços de orientação do trânsito, aplicação de multas e fiscalização do uso correto de corredores de ônibus, por exemplo, ficam prejudicados. “A população acha que a gente só sabe aplicar multa. Não sabe o que passamos no dia a dia. Somos obrigados a fazer hora extra, acumular funções. Tudo isso sem um plano de carreira, sem concurso público”, reclamou um marronzinho.

Vice-presidente do sindicato, Luiz Antônio Queiroz afirma que a cidade de São Paulo precisa de ao menos 4 mil agentes por dia nas ruas. “Temos somente 1,2 mil em atividade, e divididos em quatro turnos”, disse. Ele não soube dizer a expectativa de adesão ao movimento, mas considera-se que seja praticamente total. 

Em nota, a Companhia de Engenharia de Tráfego informou que começou a operar um plano de contingência na cidade para minimizar os efeitos da greve de funcionários. "Haverá remanejamento da equipe para reforçar o efetivo em campo conforme a dimensão e consequência do impacto do movimento na operação do trânsito", diz a nota. A última  paralisação da categoria ocorreu há cerca de dez anos, durante a gestão da prefeita Marta Suplicy (2000-2004).

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